dimanche 18 mai 2014

'I want to ride my bike' (1)


[...]

Devia ser Domingo pelo silêncio da cidade
E Primavera por causa das andorinhas
Com suas danças fazedoras de casas e de filhos.

Havia a consciência de gastar um copo de água
E da germinação das flores
Na mesa da cozinha.

[...]


Rui Pedro Gonçalves, Um rapaz à procura da sua idade,
Coimbra, Do Lado Esquerdo, 2014



jeudi 1 mai 2014

Leituras paralelas (23)


LANTERNA SURDA


A minha solidão envolta em recusas. O vazio sobre o qual cai uma cascata repugnante. O juiz de toga vermelha que existe em mim e me condena à morte. Esta espuma de inquietação à beira dos dentes. Esta bola na garganta. Este peito em que se acumulam tempestades que nunca rebentam. Esta estrada branca que me paralisa. Os homens livres que circulam por ela. Este rio de homens livres em volta da minha prisão. Todos estes palhaços que abanam a cabeça de um lado para o outro, e dizem "não". E o meu riso no escuro. Este riso que cega a minha lanterna surda.


Jean Cocteau
in Tanta Coisa Por Dizer, sel. e trad. Inês Dias,
Lisboa, Língua Morta, 2012




LANTERNA SURDA


Os ausentes sopram e a noite é densa. A noite tem a cor
das pálpebras do morto.
Toda a noite faço a noite. Toda a noite escrevo. Palavra
a palavra eu escrevo a noite.


Alejandra Pizarnik
versões de Maria Sousa, Coimbra, Do lado esquerdo, 2014