jeudi 30 janvier 2014

Leituras paralelas (19)


Não há amor ilegítimo.


Vicente Huidobro, Mágica,
trad. Ricardo Marques, 
Lisboa: Língua Morta, 2011


*


PARÁBOLA


Não há amores malditos

Há poder leis hábitos
erro espanto astúcia
impotências normas mentira
angústia domesticação comércio
cobardia e calamidade

Não há amores malditos


Félix Grande, 1937 - 30/01/2014
[Trad. Inês Dias]

EM EXPOSIÇÃO:



dimanche 26 janvier 2014

4 ORDENS DE FUZILAMENTO


I.


Encostámos uma garrafa de cerveja
a um muro

Vendámos-lhe os olhos

Apontámos os fuzis

À ordem de disparar
fuzilámo-la.

Do cadáver da garrafa de cerveja
escorria um líquido amarelo sanguinolento
das veias do vidro.



II.


Apontem-se canhões nucleares
ao firmamento

Fuzilem-se as estrelas.



III.


Encostem-se as montanhas
e os rios
os planaltos, os vales
e as planícies
a um muro de tijolo
e cal

vendam-se-lhes os olhos

fuzilem-se.



IV.


Os juízes perguntaram-lhe:
- Queres a morte ou a eternidade?
Ele respondeu:
- Acredito na morte.
Os juízes fuzilaram-no.

O ranger das canas
O gemido das flores

O uivo dos Móveis
A tristeza dos Relógios
As lágrimas das Cadeiras.



João Damasceno, Retrato do artista quando jovem aos pés da Rainha Santa Isabel
Lisboa, ed. Fenda, 1989

mardi 7 janvier 2014

Leituras paralelas (18)


Quando o Inverno começa nas mãos
quentes e sujas um cheiro a laranjas
arde no ar como coisa que chora
ao sol calmo da festa.


- SANDRO PENNA
[Trad. de Maria Jorge Vilar de Figueiredo]





EPISTROPHÉ


O cheiro a laranja nas gotas de frio,
sob o sol do inverno.

O sabor da terra ao levantar-me.


- ABRAHAM GRAGERA
[Trad. e fotografia de Inês Dias]