dimanche 27 octobre 2013

Domingologia (5)


"Que tristeza. O dia levanta-se. Retida pelo sono e pelo sonho, ainda penso que posso viver sem ter que satisfazer as minhas necessidades imediatas. Mas é domingo, dia em que a nostalgia começa ao entardecer, quando sei que amanhã devo levantar-me em perfeita contradição com o tempo. O tempo assusta-se, talvez, eu vou desempenhar o meu papel de mulher que trabalha. […] Se não fosse a imposição do trabalho, muito raramente estaria com outras pessoas, e só em condições especiais. Cada um devia partir para seu lado e canto, durante anos de solidão, ou seja, durante o tempo necessário de fazer outros tipos de conhecimento. É preciso ter outras relações, as relações entre os homens são de matéria plástica, opaca, violenta. O olho vê apenas outro olho; o dente esbarra com outro doente.
Mas hoje ainda é domingo, ainda é manhã escura em que poderei continuar a ser terna com quem está aqui na casa, sem necessária aparência de homem, e com raro espírito de ver."


Maria Gabriela Llansol, UM ARCO SINGULAR – Livro de Horas II,
Lisboa, Assírio & Alvim, 2010

dimanche 20 octobre 2013

NOVO HORÁRIO



Domingologia (4)


A PIMENTEIRA


bem antes do bater do vento no varal
as mãos amanheciam sob as roupas
em gestos ressentidos de domingo
(174 anos depois
um glóbulo branco ataca a infecção
por estreptococos no intestino de João VI
tarde demais) hoje o rio devolve
seus barcos e uma forma mais pura de grito
se preparar sob a pimenteira


Marcos Siscar, Metade da arte,
São Paulo/Rio de Janeiro, Cosac & Naify/7 Letras, 2003

jeudi 17 octobre 2013

NEVE

O quarto, de repente opulento, e da grande janela
Brotavam neve e rosas contra ele,
Em silêncio, colaterais e incompatíveis:
O mundo é mais repentino do que o imaginamos.

O mundo é mais louco, muito mais do que julgamos,
Incorrigivemente plural. Descasco e parto em gomos
Uma tangerina e cuspo os caroços, sinto
A bebedeira de as coisas serem várias.

E as chamas do fogo, com um barulho fervilhante, porque o mundo
É mais desprezível e alegre do que supomos –
na língua, nos olhos, nas orelhas, nas palmas da mão –
Há mais do que vidro entre a neve e as rosas desmedidas.


Louis MacNeice
in Estradas Secundárias - doze poetas irlandeses
sel., trad. e posfácio de Hugo Pinto Santos,
Lisboa, Artefacto, 2013