mercredi 3 juillet 2013

FRAGMENTO (NARRATIVA)


ao Laureano, in memoriam


"A democracia manda-nos falar e eu murmuro
excita-nos a grito e silencio. Depois a tirania
obriga a segredar. Então eu falo.
Impõe-nos o silêncio. É quando grito".
Assim ele ia, neste lucubrações, em grande perigo
de estranhamento e dor sob o céu baixo
das nuvens suburbanas. "De mim sai o silêncio
como um grito".  E caminhava. Nomes bárbaros
de indústrias e comércios seguiam-lhe o andar
("são nomes de demónios?, de gigantes") e as fachadas
irradiavam luzes de obscuros interiores.
Assim ele ia atento, regressando, em grande perigo.

"Não falo a vossa língua, não pertenço a esse código
por todo o lado oculto, o Livro não escrito
de onde saem ordens e discursos criminais".
Assim ele ia em combate, contrapondo voz humana
a seduções difusas e palavras-talismã.
E entretanto Outono, o fim da tarde. "A inteligência
comove-se a olhar seu próprio tempo." Alteou-se-lhe
de súbito o esterno, um arco tenso
sobre a democracia. "Não seja nunca o sonho
a comandar a vida. Que a voz que em mim compõe
me seja dura." E apressando-se
assim ele ia orando, de regresso, em grande perigo.


Carlos Poças Falcão
in Telhados de Vidro n.º11,
Lisboa: Averno, Novembro de 2008

lundi 1 juillet 2013

IN THE PLEASURE QUARTER


Being foreigner is the democracy that allows the Nigerian,
in all the accoutrements of a gangsta, to adress me as brother

and offer a special discount to a nice place where the girls are all foreign
- Russian, Brazilian, Australian - and all speak english.

We are, perversely, brothers: of the same continent,
slave and master, ear and mouth,

in the weird dialectic of Shinjuku, this thoroughfare
where crowds blur into clouds.

          What tradewinds brought him here? and those girls? and me?

Our common tongue is illusory, necessary, a kind of coin
minted by being stamped on.