vendredi 28 juin 2013

FERNANDO GUERREIRO




A acidez dos instrumentos -
ou a letra miúda, de que se
serve para debruar a ouro
o interior dos músculos -
permite-lhe retomar o ofício
opaco que para si, com o tempo,
se tornou a poesia. Se dela
se acercasse, lhe medisse
os membros - a distância
que vai do cóccix à nuca -
talvez descobrisse o número
que, uma vez repetido
(les enfants sont morts
de tant regarder les brumes),
lhe devolvesse o mundo
em que tudo acontece
no rombo que, ao cair,
em si produzem os sentidos.
mas talvez fosse preferível
não escrever, partir à aventura...
Sobre a mesa, o coração,
já com alguns meses,
atraía a si os ventos,
movidos por pássaros
esquecidos um dia
de ter morrido.
Vento desossado,
como o sentimento...
Sim, o mundo acabara -
o poema sabe-o .
e dele só restam palavras
a que os espectros se abrigam,
para repetir gestos
que as paredes devolvem
já exauridos (outro diria
limpos) de todo o sentido.


in Telhados de Vidro  n.9, 
capa dupla de José Francisco Azevedo,
Lisboa: Averno, Novembro 2008 




jeudi 27 juin 2013

POESIA


A bala no cérebro de Maiakóvski. A tuberculose de Álvares de Azevedo. O seppuku de Yukio Mishima. A miséria de Orides Fontela. A orelha de Van Gogh. A roupa puída & suja de Edgar Allan Poe. O tráfico de fogo de Arthur Rimbaud. A pindaíba de James Joyce. Os processos de Allen Ginsberg. O gás de cozinha de Torquato Neto. A cirrose hepática de Paulo Leminski. O vômito de Jimi Hendrix. O manicômio de Antonin Artaud. O salto de Ana Cristina Cesar. O tiro de espingarda de Hunter S. Thompson. A mágika sem lágrimas de Aleister Crowley. A gravata de Santos Dumont. O Hotel Inglaterra de Serguei Iessiênin. O desespero idílico de Werther. A convicção de Carlos Marighela. O cárcere de Rubin Carter. Os narcórticos & o forno de Sylvia Plath. O maligno plano virtual de Yoñlu. A heresia de Giordano Bruno. O mar salgado de Hart Crane. A extradição de Olga Benário Prestes. O tiro natalino no peito de Raul Pompéia. A morfina de Jack London. As ondas de Violeta Parra. O Sena de Paul Celan. O desespero de Walter Benjamin. O hospício de Lima Barreto. Os cinco frascos de arseniato de estricnina de Mário de Sá-Carneiro. A conversão de José Vicente. A forca de Ian Curtis. A crucificação de Jesus Cristo. A tara de Pier Paolo Pasolini. O silêncio de Buda. As quarenta doses de uísque de John Bonham. O chumbo na massa encefálica de Kurt Cobain. Os flagrantes delitros de Fernando Pessoa. O copo de vodca sobre a cabeça de Joan de William Burroughs. Os romances de Roberto Bolaño. A queda do helicóptero de Randy Rhoads. A coragem de Ernesto Che Guevara. As janelas de vidro de Unica Zürn. A calma do bosque de Wendy O. Williams. A sífilis nervosa de Manuel Laranjeira. A Praça da Glória de Pedro Nava. O câncer de próstata de Mario Monicelli. A gentileza do Profeta. A solidão do Tartaristão de Marina Tzvietáieva. Os radiogramas de João Cândido. O ataque cardíaco de Antonio Calixto. Os últimos tostões para Regine de Søren Kierkegaard. A decapitação de Zumbi dos Palmares. As proposições factuais da Primeira Guerra de Ludwig Wittgenstein. O esfolamento & o monóxido de carbono de Stuart Angel Jones. A queda de cinco andares de Jeanne Hébuterne. Os dedos triturados de Victor Jara. Os trilhos do Engenho Novo de Marcelo Gama. Os dezesseis tiros de calibre 38 & 45 no coração de Malcolm x. Os dentes no estômago de Joaquim Câmara Ferreira. O violento traumatismo craniano de Steve Biko. O rebolado de Harvey Milk. A copa do álamo de Frei Tito. O câncer no ovário de Clarice Lispector. O sonho de Martin Luther King. O fim do sonho de John Lennon. As 32 fugas, os 73 processos, os 530 inquéritos por roubos assaltos & estelionatos & as 28 facadas no corpo de Lúcio Flávio Vilar Lírio. A angústia de Graciliano Ramos. A cadeira elétrica de Nicola Sacco & Bartolomeo Vanzetti. O tiro no coração de Jacques Rigaut. A valentia de Frank Zappa. Os 109 dias de tortura de Eduardo Collen Leite. A cabeça desaparecida de Antonio Conselheiro. O misticismo de Guimarães Rosa. Os mais de cem tiros na carcaça de Cara de Cavalo. A cachacinha & o torresminho de Hélio Oiticica. A arma (presenteada por Fidel Castro) de Salvador Allende. A estrela no buraco dos olhos & o diálogo da tristeza com o fim de Cesare Pavese. A overdose de barbitúricos de Alejandra Pizarnik. A coragem, o amor, Dorine & André Gorz.


Fabiano Calixto
in Telhados de Vidro n.º 16, Lisboa: Averno, 2012

jeudi 13 juin 2013

Dia de Santo António


Hoje, e como habitualmente, 
o Paralelo W estará aberto 
entre as 14h e as 20h.




E amanhã (6ª f), pelas 22h,
Rosa Maria Martelo apresentará o #3 
da revista CÃO CELESTE.

mardi 11 juin 2013

CAMÕES E A TENÇA


Irás ao paço. Irás pedir que a tença
Seja paga na data combinada.
Este país te mata lentamente

País que tu chamaste e não responde
País que tu nomeias e não nasce.

Em tua perdição se conjuraram
Calúnias desamor inveja ardente
E sempre os inimigos sobejaram
A quem ousou ser mais que a outra gente.

E aqueles que invocaste não te viram
Porque estavam curvados e dobrados
Pela paciência cuja mão de cinza
Tinha apagado os olhos no seu rosto.

Irás ao paço irás pacientemente
Pois não te pedem canto mas paciência.

Este país te mata lentamente.
 


SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN

mercredi 5 juin 2013

No próximo sábado (dia 8)...

... o Paralelo W encerrará às 17h, 
excepcionalmente e por motivos de força maior.