jeudi 30 mai 2013

ELOGIO DA USINA E DE SOFIA DE MELO BREINER ANDRESEN


O engenho banguê (o rôlo compressor,
mais o monjolo, a moela de galinha,
e muitas moelas e moendas de poetas)
vai unicamente numa direção: na ida.
Êle faz quando na ida, ou ao desfazer
em bagaço e caldo; êle faz o informe;
faz-desfaz na direção de moer a cana,
que aí deixa, e que de mel nos moldes
madura só, faz-se: no cristal que sabe,
o do mascavo, cego (de luz e corte).


2.
 
Sofia vai de ida e de volta (e a usina);
ela desfaz-faz e faz-refaz mais acima,
e usando apenas (sem turbinas, vácuos)
algarves de sol e mar por serpentinas.
Sofia faz-refaz, e subindo ao cristal,
em cristais (os dela, de luz marinha).
 
 
 
João Cabral de Melo Neto, A educação pela pedra,
Rio de Janeiro: Editôra do Autor, 1966
 

mercredi 29 mai 2013

Luís de Camões

Julga-me a gente toda por perdido,
vendo-me tão entregue a meu cuidado,
andar sempre dos homens apartado,
e dos tratos humanos esquecido.

Mas eu, que tenho o mundo conhecido,
e quase que sobre ele ando dobrado,
tenho por baixo, rústico, enganado,
quem não é com meu mal engrandecido.

Vão revolvendo a terra, o mar e o vento,
busquem riquezas, honras a outra gente,
vencendo ferro, fogo, frio e calma;

que eu só em humilde estado me contento,
de trazer esculpido eternamente
vosso fermoso gesto dentro n'alma.




dimanche 26 mai 2013

António Osório x2


in Décima Aurora,
Lisboa: A Regra do Jogo, 1982






in A Luz Fraterna - Poesia Reunida
Lisboa: Assírio & Alvim, 2009

dimanche 19 mai 2013

POEMA PARA UM PÁSSARO QUE O LUIS MANUEL GASPAR NÃO PINTOU

Morreu-me entre as duas mãos o pássaro
vadio, era o meu peixe azul num aquário,
o fanatismo de ser de um clube, o meu ídolo
com as suas pequenas patas de barro.
Visitava-me muitas vezes, cheguei a crer
que era mais do que um, mas não, era
sempre o mesmo, o meu pássaro com asas
de um negro radioso, talvez não fosse negro,
talvez fosse às riscas, mas o bico, esse
era amarelo torrado e nunca há-de haver outro
como ele. Não lhe dei de comer, porque ele
não precisava, ele desenvencilhou-se sozinho,
acompanhou-me na velhice dos dois sem nada
exigir e agora, de asas caídas e patas trémulas,
veio morrer às minhas mãos o meu amigo.



Helder Moura Pereira, Pela parte que me toca,
Lisboa: Assírio & Alvim, 2013

vendredi 17 mai 2013

O 1º exemplar...



... do 1º livro editado pelo Paralelo W,
no seu 1º aniversário.

[Disponível a partir de 22 de Maio]

vendredi 3 mai 2013

Rui Pires Cabral

 
PLANO DE EVASÃO

Que mais podemos fazer?
Este amor é um país cansado

que não nos deixa mudar.
O medo cerca as fronteiras

e a capital é Nenhures,
cidade de perdulários

e pequenas ruas tortas
onde vem morrer a noite -

aqui estamos ambos sós,
desunidos, extraviados,

não há táxis na praceta
nem cinzeiros nos cafés

e perdemos os amigos
entre as curvas de um enredo

que deixámos de seguir.
Mas não era nada disto

o que tinha na cabeça
ao começar a escrever:

os versos chamam o escuro,
abrem os portões ao frio

e eu quero estar nas colinas
do outro lado do rio.

 
- in LADRADOR,
Lisboa: Averno, 2012