mercredi 24 avril 2013

Alexandre Sarrazola





peixe-aranha: patti smith: radio ethiopia



tenho as margaridas do teu vestido de verão; azuis e amarelas
o pêlo da raposa pelos ombros e o chapéu de lã não me enganam
a chuva oblíqua a fugir do outro texto; do texto do outro
"não entres nesse quarto"; a porta sempre fechada.

éramos secos de carnes e tínhamos cortado as mãos.
de rimbaud já só aquela faixa de sombra sobre o lado direito do rosto
a ampola de cloreto etílico pousada no chão de losangos pretos e brancos
o éter aspirado num lenço que se volatilizou como uma ave maligna
"é para a picada de peixe-aranha".

a banheira de esmalte estalada no rebordo
a água fria; os teus gatos que acordavam
o teu vestido de margaridas pousado num banco da casa de banho
e o efeito da ampola como um relampejo letal

a polaroid desse dia já começou a desvanecer-se
e não afoguei ainda a imagem do silêncio
virá comigo com os gestos por fazer
para o findo poço de mercúrio


in Thaumatrope,
Lisboa: Averno, 2007

mardi 23 avril 2013

Pádua Fernandes

 
[...]

Aqui era um restaurante popular. Mas temos que pensar no futuro. Quando inauguro creches já penso em cemitérios. Tínhamos o prédio conjugando restaurante popular e presídio. Economia das instalações. O Estado acolhe todos em sua boca... imensa. Assim a gente evita greve de fome. Gente primitiva não quer o progresso nem empreiteiras. Aqui nenhum cidadão de verdade foi espancado por causa disso.
Não era este o discurso. Perdoem. Achei: aqui era um restaurante popular. Hoje, inauguramos esta demolição.
Preparamos o futuro.
 


 in Cálcio,
Lisboa: Averno, 2012
 
 

samedi 20 avril 2013

Rui Nunes

2

Uma arma é
a intimidade mais antiga que habita uma casa:
na penumbra das salas, qualquer objecto inicia uma guerra.
Porque as palavras resvalam por um corpo de ossos
mas a mão incerta da criança
descobre a solidez de uma pedra,
de um reflexo na toalha ao lado do pão
ou na unha um prego cravado na pele.
:
Uma criança mede o futuro:
com a imprecisão dos pequenos golpes
aprende a minúcia assassina de um movimento.

 
 in Ladrador,
 Lisboa: Averno, 2012
 
 
 
 
[Fotografia de Esther Bubley,
"Boys watching the Woodrow Wilson high school cadets", Washington, 1943]
 

mercredi 17 avril 2013

Averno #057


COVA DO LOBO


Para a bisavó Jaquelina e o tio Nunes,
que fazem parte da minha primeira memória


A um nome antigo,
com o sangue afiado pelo tempo,
devemos pedir segredo,
ouvidos capazes de adivinharem
a queda da primeira folha,
promessas de uma noite 
mais escura, encrespada.

Mas aqui até as bocas de lobo são
um desengano em forma de flor, 
não como esses lírios de Júlio César,
a estaca no fundo à espera
da alma do último inimigo.
À violência acossada e ciosa da lenda
restou apenas o pescoço dos cães
no limite da humanidade,
o sacrifício da pedra que se abate 
ritualmente sobre as amêndoas,
talvez um joelho esfolado em silêncio.

(Uma vida inteira na órbita 
repetida de uma cadeira de balouço,
entre o sol do tamanho de uma baga
poeirenta e a fonte cercada de mãos
que sabem prender sem amarrotar.) 

Assim de frágil é a memória do presente.
O contrário da vida depois,
lá fora, entre a alcateia.
Nunca mais estaremos tão possuídos 
pelo acaso, tão confortáveis junto ao mal,
como antes de o reconhecermos
e destruirmos as palavras que o diziam.


Inês Dias, Um raio ardente e paredes frias,
Lisboa: Averno, 2013



dimanche 14 avril 2013

UM GRANDE SILÊNCIO


     De súbito, um  grande  silêncio invadiu  a casa. Os três  gatos a
dormir. Passagem a limpo dêste poema.

     A soledade alberga uma estrêla infinita.
     A doença é a saúde do poeta.

     Sento-me a escrever e a pingar sangue, o qual já alagou o chão
e, em fio, se esgueira por debaixo da porta.
     O sangue pinga da caneta de tinta permanente.


António Barahona, As Grandes Ondas,
Lisboa: Averno, 2013

vendredi 12 avril 2013

CONVITE

 
MAFALDA CAPELA
ALEXANDRE SARRAZOLA
 
 
CONSTELAÇÃO VEGA
  
 
 
No dia 20 de Abril (sábado),
às 22h,
no Paralelo W.
 

mercredi 10 avril 2013


Julgavas, então, que a poesia era um discurso
de palavras em sentido? Sei quanto a musa aprecia
glória, poder e uniforme, quanto aguarda
o cavaleiro que produz.
A vida, afinal, anda lá fora, antes da folha
ter passado a prensa;
a mais pequena árvore é verde eterna, comparada ao arbusto
que, mal tocada a haste, se desvai em fumo.

Por isso eu fico lendo as crónicas, as lendas,
o jornal que, bem ou mal, cruza as palavras com o tempo,
e contudo! quando o lábio se engana, solta
a mais aguda fífia do trombone,
e de repente o corpo sabe a gente, e então se diz: eis
a verdadeira e pura poesia! pois seria, talvez,
somente a tua mão, cobrindo a folha.


António Franco Alexandre

jeudi 4 avril 2013

Leituras paralelas (13)


Contra este Emporium das luzes que se vem alevantando – das luzes animadas, das luzes ecrãs-espelho: baças, vazas, vazias. Contra isto tudo: a sombra! Não a que faz o animatógrafo ou o teatro chinês, que essa ainda anima, essa está ainda ao serviço da distracção, do lúdico que o império propaga. Mas a outra, aquela que o animal escolhe para se recolher, para ter as suas crias, a sua criação; a que ajuda a lanterna de Diogenes a aluminar a procura; a que faz do farol guia para passar ao largo; a que faz a árvore dar cogumelos.

A intolerância que este mundo mostra ter às sombras está cada vez mais patente, é feita coisa para a ocupação de não estar desocupado. Novas mentes luminosas trazem-nos um mundo de led’s , de i-touch’s, de manos sem las manos,  de smart’s mas só nos phones e nos carros.

Quereis a maçã do conhecimento? Tomai a imagem marca com a trinca da Eva! É branca, dá luz, meus Narcísicos num Gold mundo! Vamos ver o mundo por um tubo! Allez, que este já vai pró You Tubo! Nada apaga mais do que a luz e é essa que é preciso desfocar. Andam a defecar às claras! Borra-se tudo menos as lâmpadas que nos podiam dar um pouco de penumbrea – que penúria!

No desassombro, tudo é irrisão, e tudo é feito para irradiar. Já não é risível sequer. A piada esgotou, a piada… nem por piedade. Smile (dois pontos parêntesis direito). Cá o «je» que se habituou a carregar só nas vogais de Deus carrega o seu smart phode e inclina-se mais para as reticências.

Os outros? Que inferno! O outro, é na busca do outrora que o acho, e onde as mentes brilhantes só vão buscar o retro e ipsis recto sai um brilhante novo! À volta, estes outros, e isto é o perigo, me parecem cada vez mais iguais uns aos outros. Os vossos apetrechos que dão luzes para vos compensar a falta de uma aura, é a nova aurora – ó-fusca! É o revólver de Goering que sem a sombra da dúvida impera e gora.

Por que nos fazem esquecer que estamos dentro do sol e fazemos a sombra?

Por que é que este tempo não quer verbo que não seja o presente mais-que-perfeito?

O Presente não existe! O presente, é um participo passante!…







"Como erguer um contraponto à economia que se tornou geral, aos interesses que ela multiplica, sem incorrer na perseguição imediata ou na fome?
Como fazer valer a força de três ou quatro contra o império de todos?
Estes três ou quatro escondem-se; fundam sociedades secretas frágeis; são forçados a fingir partilhar os costumes joviais e os gestos agressivos dos bárbaros; exibem-se nas suas cidades, nos seus templos, nos seus anfiteatros. Mas no canto, ou seja, in angulo, ou seja, ao abrigo da sombra, secretamente, passam uns aos outros, como se fossem fotografias pornográficas, em vez de folhetos sectários, ou publicitários, ou nacionais (ou seja, em vez de notas do banco), obras publicadas em nove exemplares, ou recordações de livros, ou reprografias dos próprios livros antigos que, entre todas as mercadorias, não mercadejam nada.
Estas página fotocopiadas e cizentas, imagens sem imagens, furam o tempo.”


Pascal Quignard, As Sombras Errantes – último reino
trad. de Maria Piedade Ferreira, 
Lisboa: Gótica, 2003

CASTELO DA BAIXA-CHIADO


As escadas, no coração da terra.
à hora tardia de julho. Cantava, na galeria
deserta, um mundo a que nunca pertenci. 


Cantava, cantava sempre. A ondulação do verso subia
das águas fundas do Tejo, desfazia num murmúrio
a mágoa da sua voz

lançava, não a parede
de um fado, mas o túmulo do destino: violência inerte e fértil
dissolvia no céu vazio do verão

nos azulejos em eco
viajava no pátio e nas veias da cidade
sem valor e sem préstimo a que possa recorrer, sem
vislumbre de qualquer esperança

era a toada mercadora dos vermes brancos do fado
«que queres ouvir e ver e tão perto?» (parecia perguntar-me) e
avançava na espessa noite da terra
deteve-se no meu caminho

junto às ribeiras do rio, perdia-se
resto de lívida luz. A voz já não cantava
medida da perdição

bem próximo da minha pele. Alguém
apaixonado, compreenderia num olhar
o que não tinha nome em nenhuma outra língua

nem lugar em nenhuma outra pátria. A carruagem corria (taça de
metal branco) o timbre da sua voz
pela noite de Lisboa
sorte que está connosco
pronta a gerar plantas que envenenam a vida

num leito de folhas mortas.





João Miguel Fernandes Jorge, Castelos I a XXXV,
Lisboa: Averno, 2004

Álvaro de Campos



mardi 2 avril 2013

Carlos Alberto Machado


A realidade inclinou-se um pouco para o lado direito
retorceram-se os ângulos esquecidos a um canto as nuvens
desejadas mais a norte mudaram de direcção
perturbando momentaneamente as aves
nas suas migrações inúmeras coisas acontecem em dias assim
em desalinho as estatísticas encontram sempre maneira de sobreviver
a não ser nos casos improváveis das mentiras premeditadas
nestes dias já ninguém se espanta com os rios que fogem do mar
os detectives especiais destas circunstâncias duvidosas
perseguem recompensas igualmente improváveis
olhares surpreendidos por um raio de sol que se curva
mas a realidade retoma pacientemente o seu curso.


in A Realidade Inclinada,
Lisboa: Averno, 2003