samedi 30 mars 2013

Carlos Poças Falcão

[…]

3.

Agora outra vez a caminhar
atraso de propósito o bater dos vários ritmos

Não estou contra
não vou contra
apenas subo um pouco
e desacelero

 Assim vou desdobrando
um fio de oração sobre a cidade
Depois dos triunfos
e das pequenas mortes
é só pela humildade (a terra da alegria)
que posso regressar


 in Resumo – a poesia em 2012,
Lisboa: Documenta, 2013



jeudi 28 mars 2013

António Barahona


EPÍLOGO


Acendo um círio terminado o ciclo
da rosa rotativa ao rés do rosto:
ilumino a expressão do que, profundo, 
intento, à luz rufa do crepúsculo:
apenas o diário dum recluso
em liberdade na prisão do mundo. 


1967-2013


- António Barahona, As Grandes Ondas,
com capa de Daniela Gomes,
Lisboa: Averno, 2013







NUUR

[...]

A pouca luz que tenho no rosto provém igualmente de um beijo teu.
Um beijo muito núbil, cheio de castidade e desejo, num perfeito equilíbrio de suavidade religiosa. 
Um beijo inspirado por Deus.
Agora, quando leio o Alcorão, de madrugada, a pequenina luz circular do meu rosto aumenta de diâmetro e ilumina o som do texto.
Já não preciso do candeeiro aceso.


António Barahona, Raspar o fundo da gaveta e enfunar uma gávea,
com capa de Luís Henriques,
Lisboa: Averno, 2011

samedi 23 mars 2013

Leituras paralelas (12)

O JARDIM


Havia, tinha de haver, um jardim.

Os ruídos do trânsito rodopiavam, mas era um espaço
para que os cidadãos se refrescassem,
observado de cima pelo palácio.

Atrás, a Polícia ocupava cantos de
sentinela de brincar - deve ter havido
briefings, e-mails, pessoas com uma palavra a dizer.

Mais para além, porém, alguns pais ajudavam os filhos
a lançar barcos numa lagoa tocada a vento, para os trazer depois
de volta, a porto seguro, com uma longa vara.

"É - um poeta escreveu - a coisa mais próxima
ao idílio que merecemos; autorizam-nos
mais uma vez a entrar no Éden como de direito."

Muitos dos que vieram para a cidade foram 
ficando pelo jardim; bebiam café,
vislumbravam sentidos no horizonte vago, organizado.

Um dia, os avisos apareceram: "O jardim
foi encerrado, avisa-se que é proibida
a entrada sob pena de incorrer numa coima."

E depois, noutro dia outra mensagem dizia:
"por ordem dos abaixo-assinados (cujos nomes
incluem aqueles que percorrem outros lugares, estando mortos)

o jardim foi, tinha de ser, destruído."


MICHAEL O'NEILL
[Trad. Ricardo Marques]





Era o Inverno...



Miguel Martins, A Metafísica das T-Shirts Brancas,
Porto: 50Kg, 2012

jeudi 21 mars 2013

FOI PARA ISSO QUE OS POETAS FORAM FEITOS


semear tempestades
e assegurar que cresçam
foi para isso que os poetas foram feitos

esgrimir com a mais idónea
das espadas: a coragem
foi para isso que os poetas foram feitos

namorar a perfeição
e às vezes alcançá-la
foi para isso que os poetas foram feitos


A. M. Pires Cabral
in RESUMO - a poesia em 2012,
Lisboa: Documenta, 21 de Março de 2013

mercredi 20 mars 2013

Leituras paralelas (11)



AS FOLHAS DA CEREJEIRA


A André Tarkovsky


Por cima de Casteldeci há uma igreja sem tecto e as paredes têm entre os braços uma cerejeira que cresceu no chão e cujos ramos tocam o céu.
Em Abril floresce e a brancura desliza da árvore até ao fundo do vale, depois nascem os frutos e comem-nos os melros e os pássaros bravos; entretanto as folhas ficam vermelhas e uma de cada vez caem ao chão.
Se alguém assoma àquelas paredes com o desejo de pedir um milagre e há uma folha que cai nesse momento é sinal que de lá de cima terá uma resposta boa.
Tarkovsky passou lá em Novembro e precisava de fazer um pedido grande, mas as folhas já tinham caído todas e serviam de cama a duas ovelhas que dormiam.


Tonino Guerra, O Livro das Igrejas Abandonadas
Lisboa: Assírio & Alvim, 1997








dimanche 17 mars 2013

RENTE À FALA, 25


Desperto ainda oiço chegar o inverno -
onde iria com seus martelos de silêncio
seus cavalos lentos pela névoa
os dedos minúsculos sobre a pedra?



Eugénio de Andrade
in O Inverno na Poesia Portuguesa - Antologia,
Lisboa: Edições Mic, 1979

vendredi 15 mars 2013

Leituras paralelas (10)

Em Março de 2010 Pedro Tamen ofereceu-nos O livro do sapateiro, 49 poemas (escritos entre 18 de Maio e 25 de Agosto de 2009), onde a humildade das pequenas coisas, do fazer quotidiano, do saber da mão, se transporta para a condição do homem, da existência, para a temporalidade: vida e morte, sentido e absurdo. Um livro magnífico, que começa com uma belíssima proposição e se estende sequencialmente em poemas lhanos, rentes à palavra, de grande mestria formal, ligados por uma muito subtil narratividade que os sequencia e confere à obra uma unidade firme e brilhante. Poesia «redondinha»? Longe disso: laborioso olhar sobre laborioso quotidiano.
 
 



Aqui deixo os cinco primeiros poemas e o último (49.º):
 
 
La eternidad está en las cosas
del tiempo, que son formas presurosas
 
JORGE LUIS BORGES


1.

Iremos procurar a razão da giesta
a razão do amarelo
iremos procurar a razão
iremos procurar
e os olhos tomarão todas as cores
as cores de tudo


2.

Mordeu a vida a pele da minha mão direita.
Na mão direita que segura o ferro
e assim julgava dominar o tempo,
devagar, mas depressa, como não existindo,
entrou incendiado um sopro do destino
sobre o qual aqui me tenho acocorado.


3.

Sentado no curto escabelo que me deram
espreito aqui da cave pela janela alta
as pessoas que passam.
Passam passam deixo de vê-las
enquanto ergo e baixo a ferramenta.
Continuo sentado no escabelo que me deram
e no escuro desta cave estou acompanhado.
Sim, acompanhado
não por quem passa
mas por quem não passa.


4.

Há um rio e o outro lado do rio.
Ao longe há um verde entrando pelos olhos que fecho
e sem saber ao certo
se o que entra é a cor de um certo tempo antigo
ou o licor de um outro tempo novo.
E verifico então de olhos molhados
que não há que saber
nem distinções na paisagem
— que é uma só no largo coração.


5.

Estar aqui é como não estar aqui.
No escuro onde as minhas lentas mãos modelam
a pele deste ser vivo,
o universo,
é da fina camada que cobriu
o seu vasto percurso
no largo da pastagem,
é no táctil roçar da sua vida
que uma luz, é esta!, me transporta.
(…)


49.

Vejo-me no brilho que te dou,
ó espelho das minhas mãos,
fugaz vitória destes dias
últimos.



 

mercredi 13 mars 2013

Leituras paralelas (9)


ODE MATERIAL



Oh!, tule!, oh!, tafetá!, oh!, gorgorão -
Aqui vos convoco, oh moças,
Dos tecidos e da mulher eu canto. O meu marido
dissera-me que talvez me abandonasse - não
tinha a certeza, mas era provável, talvez - e não, não tinha nada
a ver com ela. Oh!, cetim!, oh!,
acetinado!, oh!, veludo!, oh!, filhadaputa do veludo! -
no dia do baile de gala do senhor doutor,
o folclore anual, as rendas,
as redes, disse-me que seria difícil para ela
ver-me lá, a dançar com ele,
se não me importava de não ir. E, como há
trinta anos que o armo,
mais ainda o armei - Arma, Virumque,
serapilheira, bordados a cinza! Ele a vestir
o terno e eu a ver-lhe o
sorrizinho no espelho, enquanto atava o laço;
ao fim de mais de três décadas, ganha-se alguma
afeição pelas pequenas falhas um do outro
e ficava-me bem acreditar que
nada de mau viria a existir entre nós. Metade-
metade, tinha sido o casamento,
metade-metade a sua destituição. E quando ele voltou
para casa e trocou de pele, Leitor,
dormi com ele, a pensar que isso significava
que tinha regressado, que o seu corpo falava por ele,
e enquanto falava, cantava do chão
o seu parente, o velho laçarote. Oh!, seda!,
oh!, novelo!, oh!, casulo roubado. É uma coisa que
a nossa espécie faz, não é,
tira-se o que se pode. Quando não, haveria bichos-da-seda
com caixinhas de pessoas, nas despensas, a produzir
placentas para uso das larvas, haveria
uma vaca que nos arrancaria os filhos
por nascer, e deles faria sapatos para o vitelinho.
Oh!, pijamas de peça única das crianças! Ama quando fores
amado. Oh!, dormideiro de flanela do bebé,
com fatia de tarte de cereja.
Ama só quando fores amado! Oh!, fatinho de recém-nascido
com lagarta a sorrir sobre o coração, é
proibido amar quando não somos amados.


Sharon Olds, Stag’s Leap, 2012




mardi 12 mars 2013

Leituras paralelas (8)


A minha sugestão é o livro “O Mel” de Tonino Guerra, poeta que deveria estar bem mais editado em Portugal.
A edição é de 2004 e pertence à Assírio & Alvim. Sendo a tradução da responsabilidade de Mário Rui de Oliveira. Este livro marcou tanto a minha vida que, unicamente, o que tenho a dizer sobre o mesmo é representado na fotografia que concebi para homenagear a obra e reflectir o deslumbramento que me causou. É também o livro que mais ofereci a amigos ou aconselhei a leitura.

 
 
 
 
 
 
 
A introdução de Mário Rui de Oliveira sobre os 36 cantos que compõem esta obra:

 

O rumor da folhas que caem

 

Deste livro de Tonino Guerra, que o leitor tem entre mãos, Italo Calvino escreveu: «O Mel é um livro que se tornará mais belo cada ano que passar e daqui a cem anos muitos aprenderão romagnolo para ler no original a jornada dos dois velhos irmãos». O Mel foi publicado em 1981, pela Maggioli, uma editora quase clandestina de Rimini, em dialecto romagnolo acompanhado de uma versão em Italiano.
                A Rudeza de carácter dos dois irmãos é, certamente, mais nítida nas formas dialectais do que na compostura de uma língua corrente, distanciada do mundo arcaico e seus segredos, que a todo o momento fogem. Já os gregos diziam «o ser ama esconder-se».
                O próprio Tonino Guerra propôs que se elaborasse a tradução portuguesa a partir do romagnolo, emprestando para isso memórias, propostas, esclarecimentos, correcções, tudo o que foi determinante para este projecto. Recordo que o canto Vinte e Quatro, por exemplo, «encomendado» por Fellini par o filme Casanova, valeu muitos telefonemas para Portugal na obstinada busca de uma palavra, «quase dialectal», que adensasse o carácter misterioso do poema. Dos quatro ou cinco termos apresentados, quis ser Tonino a escolher. Ou como a sua emoção inesquecível ao retomar o Canto Dezasseis, soletrado no filme de Tarkovskij, Nostalghia, me pareceram um desses tantos sinais que testemunham a generosidade e o entusiasmo que empregou nesta colaboração.
                O livro não é autobiográfico, mas é difícil não encontrar nele o fantasma de um tal Tonino Guerra, que abandonou Roma (depois de trinta anos naquele andar do Piazzale Clodio) e partiu para os confins da campesina Emilia Romagna, onde Dino, seu irmão mais velho, habitou até à sua morte, ocorrida já em 2003.
                Creio que lendo O Mel se percebe que Tonino Guerra nos faz ouvir o rumor das folhas que caem.
 



CANTO NONO (CANTÈDA NÓV) *

 

Terá chovido durante cem dias e a água infiltrada

pelas raízes das ervas

chegou à biblioteca banhando as palavras santas

guardadas no convento.

 

Quando tornou o bom tempo,

Sajat-Novà o frade mais jovem

levou os livros todos por uma escada até ao telhado

e abriu-os ao sol para que o ar quente

enxugasse o papel molhado.

 

Um mês de boa estação passou

e o frade de joelhos no claustro

esperava dos livros um sinal de vida.

Uma manhã finalmente as páginas começaram

a ondular ligeiras no sopro do vento

parecia que tinha chegado um enxame aos telhados

e ele chorava porque os livros falavam.
 


*Neste poema Tonino Guerra refere-se ao poeta Sajat-Novà
 e ao sublime filme de Sergei Paradjanov de 1968 “A Cor da Romã”.





Daniel Curval

 

Leituras paralelas (7)

DIZER NÃO AOS BONS OFICIAIS COMO OFÍCIO,
à sua máscara e ao seu enjoo.
Dizer basta à sua organização, à sua ordem,
acabou-se a tanto arcanjo diplomático.
Saber que cada abraço é um selo na boca
e que os nossos silêncios são comprados com pancadinhas
nas costas e nos ombros. Não hesitar na hora
de reprimir um lampejo das nossas vaidades.
A beatice mordeu-me em jovem
e converti o amor em meu inimigo.
Prometeram-me mundos e fundos
e dormi com a ambição, essa amante com espinhos.
Depois disse até aqui, e não era tarde
porque estremeci na magia
de um fio que me prendia à origem do mundo
e até lá passava pelas coisas secretas.
Mas vieram outra vez os bons com as suas músicas,
vestiram-me de limpo, casaram-me
com a decência e o decoro
e em troca cobraram-me muito sangue.
Já basta de Verdade com os seus remendos.
Já basta de chantagem, morte à sua derrota,
que a ameaça não prolongue a minha vida.
À hora da sesta, quando tudo é sonolência
e recupera a paisagem a sua nudez antiga,
como Gregory Corso subi ao sótão
e abri a janela para atirar as coisas
mais importante por ela: a Verdade, com a sua impostura,
disse-me: “Não faças isso, senão denuncio-te;
direi que foste infiel aos teus amigos,
à tua mulher, desleal com os teus pais,
uma má pessoa”. Fora!
E logo Deus a jurar por si mesmo
através dos seus templos e dos seus corifeus
isso do livre arbítrio, que Ele não teve culpa,
que está inocente
porque na sua essência sem contradição
não é capaz de mentir, nem dividir-se
no seu todo absoluto, excepto
quando ao sétimo dia
encarregou Heine de criar as nuvens.
E depois o Amor a prometer a sua felicidade
como um bolo de cascas,
enjoativo primeiro e depois sujo.
Livre!, sim, na condição de não obter
tal liberdade de joelhos fincados.
Livre!, mas de tanta liberdade,
essa que liga Deus às contradições
dos seus operários especializados, não às do santo
ou às do missionário que estão feitas de pão,
de vinho e de reunião:
a liberdade da sabedoria como uma circunferência,
a liberdade da razão sempre a duvidar,
a da fé não submetida ao seu dogma.
Ramos sem tronco floridos,
no extremo erigida a flor
como o sangue elevado no beijo,
sem a sua raiz a rosa na liberdade azul,
os pássaros com mãos ou os homens com asas.
E o seu fulgor como de feitiçaria.
Um sonho em que gire o universo.
Eu e a minha luz em solene despedida de tudo o que me prende,
à margem da lei, do seu artifício, do seu clã;
da justiça, que nunca enforca
os bolsos cheios.
Eu voando, voando onde não
há choro, voando no esquecimento.


Mas como costuma acontecer nos sonhos felizes
acordei nesse ponto,
quebraram-me de repente o mealheiro
como o entardecer o céu puro do oeste.



Antonio Hernández, O Mundo Inteiro,
Lisboa: Língua Morta, 2012

dimanche 10 mars 2013

Hoje, domingo, às 22h...

PARTIDAS


Ana Isabel Soares escolhe e lê poesia
no Paralelo W.

Estão todos convidados.

samedi 9 mars 2013

Leituras paralelas (6)

A minha escolha é Matière et mémoire: essai sur la relation du corps à l’esprit (1896), de Henri Bergson.
 
 

  
Trata-se de um belo texto que procura a supressão do aborrecido dualismo entre corpo e espírito. A matéria seria um conjunto de imagens, entendendo a imagem como uma certa existência que vai além do idealismo de uma representação e que é menos do que uma coisa. Por outras palavras, a imagem situa-se entre a representação e a coisa. Esta afirmação é interessante. E é neste espaço que tudo verdadeiramente acontece. A relação do corpo afectado pela imagem. O cérebro faz parte do mundo material. A matéria seria o conjunto de imagens; a percepção da matéria seria essas mesmas imagens reportada à acção possível de certa imagem determinada: o meu corpo. Corpo e espírito. Um não é, não pode ser, sem o outro.


Isabel Nogueira
 

CAFÉ EUROPA

A última coisa que me apetece saber,
esta noite, é quem terá contribuído
mais para a dignificação do continente
que se prestou ao rapto de ser nome de café.

As molduras electivas, na parede
que agora nos encima, dificilmente
coincidiriam com as minhas escolhas,
caso tivesse mesmo de escolher.
É o azar relativo de preferir Cioran
a Freud ou Rothko a Mondrian,
contrapondo a tudo um imenso nada.

Lembrar-me-ei, porém, da voz displicente
que fazia no WC a análise sociológica
da Dinamarca (cheguei a pensar que se
tratasse de poesia) e da mulher que encostava
ao balcão os seios, caindo sobre um gin tónico
onde se consubstanciava a ideia física de amor.

Eu sei que há "extensões da alma" perfeitas
e irredutíveis. Mas apenas tive direito a uma caixa
de fósforos, datada de 1989 e muito pequena.


Manuel de Freitas, Brynt Kobolt,
Lisboa: Averno, 2008

vendredi 8 mars 2013

Leituras paralelas (5)

"Eu própria nunca escolho sozinha sobre quem vou escrever, e não é o ouvido, nem a visão, nem a minha voz, que participam comigo nessa amizade electiva. Creio que é o texto anterior tornado ser. O seu efeito é fazer desaparecer a lembrança de si próprio, de desligar-se da vida que possuo."
Maria Gabriela Llansol, Um Falcão no Punho, 1985


Marta Chaves

jeudi 7 mars 2013

Leituras paralelas (4)


O dia de amanhã, de Ignacio Martínez de Pisón,  tem como protagonista Justo Gil, um informador da Polícia Política nos últimos anos do franquismo. A sua história, a dum emigrante pobre e sem escrúpulos que acaba por se tornar delator, é contada por doze personagens que, em momentos diferentes, se cruzaram com ele. Justo Gil, mais do que um homem como tantos outros, é uma metáfora angustiante do que foram os terríveis anos dum regime moribundo, em que o medo, as traições mas também a luta pela liberdade marcaram decisivamente a vida de todos os espanhóis.
 
 
 
 
"E, numa dessas tardes, vi-a, diz Eliseu Ruiz. Uma tarde, vi a Teresa em frente dum colégio da rua San Antonio María Claret. Estava na hora de saída e havia muitas mães à espera. Se a vi, foi provavelmente porque de uma forma inconsciente andava à procura dela. Como explicar senão assim que, de todas as vezes que me cruzava com uma mulher da mesma altura e aspecto, ficasse a observá-la com a secreta esperança de que fosse ela, a Teresa? As crianças começaram a sair, em grande algazarra. Agora que a encontrara, não conseguia afastar-me dali. Precisava de continuar a vê-la, precisava de perceber em que é que estava diferente, sete anos depois da última vez, e de ver como abraçava o filho e como se comportava quando supunha que ninguém a olhava. Eu estava na esquina, meio escondido atrás dum marco de correio, e ao ver que a Teresa e o filho vinham na minha direcção puxei a gola do casaco e virei-me para o outro lado. A Teresa passou a menos de dois metros de mim, e eu inspirei com força para captar o cheiro dela. Apesar de, naquele momento, me ter conseguido conter, senti que alguma coisa se desencadeava dentro de mim. Quando não pensava em nada, pensava na Teresa. Talvez nunca mais voltasse a estar com ela, mesmo assim precisava absolutamente de saber da sua vida. Descobri que já não vivia na rua Escorial, mas que continuava no mesmo emprego. Que tirara a carta de condução e tinha um Seat 600 cinza. Que o marido se chamava Ramiro e o filho David… Imaginava-os como uma família alegre e feliz, e essa alegria e essa felicidade impunham-me tanto ou mais respeito do que as normas de segurança do partido. Quem era eu para me imiscuir naquelas vidas?"
 
 
Maria Manuel Viana
 

mercredi 6 mars 2013

Leituras paralelas (3)



São de O Tempo, Esse Grande Escultor as citações que envio,
do ensaio "Em memória de Diotima Jeanne de Vietinghoff",
ao longo do qual Marguerite Yourcenar vai citando Jeanne de Vietinghoff:


“Para quê fazer da vida um dever se ela pode ser um sorriso?

[…]

Não julgues. A vida é um mistério, cada um obedece a leis diferentes. Conheces porventura a força das coisas que os conduziram, os sofrimentos e os desejos que cavaram o seu caminho? Surpreendeste porventura a voz da consciência a revelar-lhes em voz baixa o segredo do seu destino? Não julgues; olha o lago puro e a água tranquila onde vêm quebrar-se as mil vagas que varrem o universo... É preciso que aconteça tudo aquilo que vês. Todas as ondas do oceano são precisas para levar ao porto o navio da verdade.
Acredita na eficácia da morte do que queres para participares do triunfo do que deve ser.

[…]

É preciso ter esgotado a dor antes de atingir a hora tranquila que precede a nova aurora.

[…]

Nós é que não estamos prontos. Os objectos da nossa felicidade existem há dias, anos, talvez séculos; esperam que a luz se faça em nossos olhos para os vermos, e que o vigor cegue aos nossos
braços para os agarrarmos. Eles esperam e espantam-se de há tanto tempo ali estarem inúteis.
Sofremos (dizia ela ainda), sofremos de cada vez que duvidamos de alguém ou de qualquer coisa, mas o nosso sofrimento transforma-se em alegria logo que apreendemos, nessa pessoa ou nessa coisa, a beleza imortal que nos fazia amá-la.

[…]

Não o que se vê, o que se diz, o que se pensa, mas a implacável união que, para além de todas as coisas conscientes, une a minha alegria à tua alegria naquilo que nas nossas almas é indizível.
Não as promessas, os beijos, as carícias, mas o acordo do ritmo no universal fluir...”


Jeanne von Vietinghoff (1875-1926)


Diz depois Yourcenar sobre J. de Vietinghoff:


"Sempre duvidou de que o homem tivesse que vir a responder por aquilo a que se chama os seus pecados. Para ela, eles eram como estilhaços de mármore, inevitável lixo que se acumula em volta de uma obra de arte por acabar, no atelier de um escultor…"



Helena Nilo

lundi 4 mars 2013

Leituras paralelas (2)


LYDIA PUCKETT


Knowlt Hoheimer fugiu para a guerra
um dia antes de Curl Trenary ter obtido
do Juiz Arnett uma ordem de prisão
pelo roubo dos porcos.
Não foi isso, porém, o que fez dele um soldado.
Encontrou-me a passear com Lucius Atherton.
Tivemos uma discussão e eu disse-lhe para nunca mais
me aparecer à frente.
Então, ele roubou os porcos e partiu para a guerra.
Por trás de cada soldado, há sempre uma mulher.


Edgar Lee Masters, Spoon River - Uma Antologia
tradução de José Miguel Silva, 
Lisboa: Relógio D’Água, 2003








PARTIDAS

Este domingo (dia 10),
às 22h,
Ana Isabel Soares escolhe e lê poemas
no ParaleloW.




Estão convidados.

dimanche 3 mars 2013

Leituras paralelas (1)


DA FINITUDE



Para o João e a Vina



“A minha impressão é a de que nada foi, tudo está sendo; agora vivos, posso olhar de cima, ou do exterior; acordo e verifico que sobre o dia de hoje já passaram cem anos, e desço uma oitava, ou várias, no tom de descrevê-lo […] Sim, as coisas são veículo de conhecimento, à medida que se dispõem experimentam o nosso pensamento e submetem à prova a nossa maneira de agir; disponho-as de certa maneira e já outras percepções surgem, mudo-as de lugar, estabeleço entre elas outras recíprocas relações, e já novos seres estão presentes e começam a exprimir-se (a mim) para que eu não os abandone, os descreva, os mantenha, os reforce na sua realidade nascente; quando tudo por mim for abandonado (penso na morte), haverá objectos que, em outras casas que os herdarem, chamarão alguém a seu destino.”

Maria Gabriela Llansol, Finita
Assírio e Alvim, 2005, p. 220 
[Rolim, 1987]






Tive o prazer e o privilégio de privar com a Gabriela nos últimos anos da sua vida – minha vizinha em Sintra, fui-me tornando vizinho do seu mundo em horas de conversas e trocas várias, de idas e vindas da casa da saudação, e em outros territórios circundantes que ainda hoje percorro. Finita, se não bastasse já por si como marco incontornável da infinitude do encontro inesperado do diverso que esta escrita convoca, marca, na minha biografia, o começo dos trabalhos. Como a própria deixou tatuado na porta de entrada do meu exemplar - “Chegada do Ricardo à Casa da Saudação. Chega bem____”.

Não deixa de ser irónico para mim que ao fim de alguns anos, em outro acaso do tempo, num momento em que a legência ocorre ainda mais textual e diversa, com a morte do corpo físico e, ele sim, verdadeiramente finito, uma solicitação me traga pontualmente para junto de Finita, e em particular para uma das minhas citações preferidas. Este é o ano em que começo uma nova década na minha vida. E leio a frescura desse verde óleo de escrita que era o de Llansol, confessado e praticado nestas páginas, com a mesma pujança da minha primeira leitura, “como se a mão fosse coração e cabeça ao mesmo tempo.”

É, e certamente será sempre, um dos livros fundamentais da minha vida. A minha (in)finitude passa também por aqui.



Ricardo Marques
Londres, 3 de Março de 2013

samedi 2 mars 2013


II



Não sei como dizer-te que minha voz te procura
e a atenção começa a florir, quando sucede a noite
esplêndida e vasta.
Não sei o que dizer, quando longamente teus pulsos
se enchem de um brilho precioso
e estremeces como um pensamento chegado. Quando,
iniciado o campo, o centeio imaturo ondula tocado
pelo pressentir de um tempo distante,
e na terra crescida os homens entoam a vindima
- eu não sei como dizer-te que cem ideias,
dentro de mim, te procuram.


Quando as folhas da melancolia arrefecem com astros
ao lado do espaço
e o coração é uma semente inventada
em seu escuro fundo e em seu turbilhão de um dia,
tu arrebatas os caminhos da minha solidão
como se toda a casa ardesse pousada na noite.
- E então não sei o que dizer
junto à taça de pedra do teu tão jovem silêncio.
Quando as crianças acordam nas luas espantadas
que às vezes se despenham no meio do tempo
- não sei como dizer-te que a pureza,
dentro de mim, te procura.


Durante a primavera inteira aprendo
os trevos, a água sobrenatural, o leve e abstracto
correr do espaço -
e penso que vou dizer algo cheio de razão,
mas quando a sombra cai da curva sôfrega
dos meus lábios, sinto que faltam
um girassol, uma pedra, uma ave - qualquer
coisa extraordinária.
Porque não sei como dizer-te sem milagres
que dentro de mim é o sol, o fruto,
a criança, a água, o deus, o leite, a mãe,
o amor,


que te procuram.



Herberto Hélder, Ofício Cantante,
Lisboa: Assírio & Alvim, 2009

II


Lá em baixo, como é também
sabido (embora de alguns apenas),
fica a taberna da Dona Benilde.
Central da Praça das Flores,
se preferirem. Onde não encontrarão
uma coelha morta, os dedos sujos
de tabaco do senhor Jorge
ou o rasto ainda mais sujo da felicidade.
Mas podem facilmente encontrar-me,
junto ao relógio parado que fixei
a tarde inteira – enquanto o 100, coitado,
subia e descia o mais improvável dos destinos.

Razão tem sempre Benilde, ao dizer
por exemplo que «acredita mais em coisas
más do que em coisas boas».


Manuel de Freitas, Vai e vem,
 Assírio & Alvim: Lisboa, 2005