mercredi 27 février 2013

OS BÊBADOS


O ruído da morte está aqui neste bar desolado
Onde a tranquilidade se senta inclinada sobre a sua oração
E a música abriga o sonho do amante
Mas quando moeda alguma compra este fundo desespero
Nesta casa tão solitária
E de todos os destinos o mais solitário
Onde nenhuma música eléctrica destrói o bater
Dos corações duas vezes quebrados mas agora reunidos
Pelo cirurgião da paz no perónio da desgraça
Penetra mais profundamente do que os trompetes
O movimento da mente que aí faz a sua teia
Onde as desordens são simples como o túmulo
E a aranha da vida se senta, dormindo.




- Malcolm Lowry traduzido por José Agostinho Baptista
in Telhados de Vidro n.º3,
Lisboa: Averno, Novembro de 2004

jeudi 21 février 2013

CASA DE HÓSPEDES



Estás próximo e és uma saudade.
Tudo neste estranho lugar
se desdobra próprio, para quem reflecte
a razão da sua serenidade
em música, quase inexistente, quase familiar.

Em cada parede há uma pausa. Retratos
íntimos. Livros de folhas soltas.
A tua alegria é um gesto calmo, conveniente.
Na suavidade ambiente
chovem pétalas envoltas
de desejos simples.
Mornos nos meus ombros acaricio dois gatos.

Avisei que levassem estas flores.
É perigoso dormir com rosas.
Corram os estores.



Manuel de Castro, Paralelo W
 (edição do autor)

mercredi 20 février 2013

CASTELO DE ALMEIDA LIMA




Do lado norte da ilha fica a minha casa. O mar
lança-se contra os vidros, vence a distância da vila, ruas e praças.
Setembro, em saudação
deposita à entrada do quarto a renda das marés.
Morreu ontem. E hoje desarmei o oratório. Os santos, as
pagelas, a humilde folha de oração
as imagens olhavam-te, gratas, de um a outro e outro Inverno
de uma vida
guardavam-te os lábios, as palavras no dia da sua festa
eram os teus hóspedes no norte desta ilha – ao longe, desde o cimo do
outeiro, a voz enleadora dos romeiros adormece a despedida e
na rua os caveleiros de São Pedro, celeste mensageiro, apagam a memória.

Do lado norte da vila, a minha casa
onde o vento demoradamente fala dos cimos do mar, guardo
as imagens, escolhidos companheiros de toda uma vida, no fundo
gavetão da cómoda. Estava vazio, à sua espera. (Vão sentir-se bem,
como se aguardassem a ressurreição dentro de um cesto entrançado.) Nas
gavetas cimeiras, toalhas de antiga sombra, lençóis, linho bordado
espera a visita do primeiro sono de nenhum recém nascido e a mortalha.
No oratório, a Cruz vai permanecer.
por detrás das portas fechadas. Ele sabe a tristeza da ilha, o nome da vila, o
número da porta, o fumo pesado, azul ferrete da pequena cratera que vai

da terra húmida para o azul cinza do céu. Ao longe, muito ao longe, na fronteira
nenhuma do mar
eu sou, eu sou agora a melancólica rapariga, a
trança ainda por fazer, tormento do laço tão azul, amarrotado.



João Miguel Fernandes Jorge, Castelos – I a XXXV,
Lisboa: Averno, 2004

dimanche 17 février 2013

Domingologia



(1)




desde muito cedo comecei a desenvolver essas qualidades
sem valor. a mesma técnica aperfeiçoada na infância a entrançar cordas
pode ser usada
para fazer nós de gravata. ao espelho,
yorick deita-me a língua de fora quando me olho
antes de sair para o trabalho. lembro-me de ti.
vias documentários sobre vida marinha aos domingos à tarde
a inventar profissões inverosímeis para
um habitante dos subúrbios de uma cidade distante, com
o mar nunca demasiado longe ou perto. 
a tua personalidade foi sempre o teu futuro.
todas as decisões te levariam a uma casa
semelhante, a uma vida idêntica e feliz. mas
a felicidade nunca esteve nos planos e por isso yorick
ri-se de mim: de fato e gravata a correr para apanhar o autocarro
com os movimentos treinados no jogo da apanhada.
o sucesso é muito difícil de medir. fazes nós de gravata, quando Curtis
usou a mesma técnica para se enforcar com uma corda da roupa.
levarás muito mais tempo a obter um resultado semelhante. 



Tiago Araújo, "Yorick"
in Deitar a Língua de Fora, Lisboa: Língua Morta, 2012

samedi 16 février 2013

A Huacanamo (Barcelona) no Paralelo W:


NOCTURNO



Meia-noite em Alicante. Da varanda do meu hotel da Calle Mayor, na estreita franja negra que formam, quase se tocando, as cornijas, avisto duas gaivotas que flutuam como farrapos de linho deslizando pelo firmamento.
Uma anémica estrela tirita, solitária e desgraçada, na abóbada do céu.
Pela rua passa um tipo escrevendo uma mensagem num telemóvel. Acabo o cigarro e entro no quarto. Junto da cama, um cartaz anuncia em inglês:
"Há algo melhor do que tornar realidade os teus sonhos. Tornar realidade os dos outros...".
A poesia no século XXI.


Roger Wolfe, Tiempos Muertos,
Barcelona: Huacanamo, 2009

[Trad. ID]

vendredi 15 février 2013

CANÇÃO DO GUARDA-FLORESTAL

Demoraste
Que guardo para ti
As trepadeiras, vivas, os besouros
Estremunhados, as maçãs trincadas depois na palha
Volúvel. Apanho o que passa na luz fugindo
Da qual se desprende, por vezes, o ouriço - de madrugada,
Quando também ele, por engano
No teu vulto e nas névoas que baixam
Procura
Das faias saber quem nos leva para dentro

Deste silêncio
Que nas folhas se agita, guardado
- e mortal?

Demoraste... Demorei.



Gil de Carvalho, De Fevereiro a Fevereiro,
Lisboa: Centelha, 1987
 

jeudi 14 février 2013



em segunda mão



recém-chegado

UM AMOR ÍMPAR


Como eu gostei de ti, claro
gostaram de ti outros. E outros tantos
no futuro gostarão de ti assim.
Como não amar com idêntico rancor
a tua voz desfeita, avançada a noite,
a tua furiosa adição à tristeza,
o teu velho amor aos velhos chapéus?
Seria insensato não te amar,
e a nossa insensatez, que é bem famosa,
nada tem a ver com este assunto.
O que me tira o sono nesta altura
- especialmente quando penso
que serias incapaz de algo tão nobre -
é que o amor se esqueça de me matar,
pois se reparo que não serei eterno,
nada mais elegante me ocorre,
nenhum veneno tão afortunado,
para dar um final a esta comédia.
Do mesmo modo queria que o amor
- e não digo o meu amor, pois é sabido
que já não é o que era noutros tempos -
ulcerasse a tua alma até a arruinar toda.
De certeza que te agradaria
exibir este final, que agora te ofereço,
como mais um dos teus velhos chapéus.
Desconfia deste galardão:
estamos concebidos teimosamente,
és invulnerável a algo tão puro.
Quando muito retomarás o teu voo
até ao selvagem rebordo de um copo
e eu não alcanço sempre essas alturas.
O amor é ímpar, e tu e eu exactos.
Como eu gostei de ti, estás a ver,
gostaram de ti outros. Mas duvido
que alguém fosse tão parecido contigo:
inconstante e falaz, e desejoso
de ser ímpar. Talvez como o amor.
 

 

Carlos Marzal, El Corazón Perplejo,
Barcelona: Tusquets, 2005
[Trad. ID]

lundi 11 février 2013

MARDI-GRAS

Amanhã, 3ª feira, 
o Paralelo W estará aberto
entre as 14h e as 20h.



Helen Levitt, 1942

dimanche 10 février 2013

"quando tudo está em festa/ e até fevereiro regressa"


O TROY É UMA INSTITUIÇÃO E NEM SEQUER PEDE
e assim acaba por ser um mendigo absentista, impróprio.
Dizem que só no carnaval estende a mão
como os outros põem a sua máscara.
Mas em janeiro, que é o mês das chuvas
e o Passeio Marítimo uma espécie de frontão do mar,
ou em agosto ou julho quando tudo está em festa
e até fevereiro regressa com o som dos seus foliões
e os churrascos na praia são
como sinais votivos de um povo milenar,
o Troy limita-se a falar sozinho da sua estrela
desorbitada, fala ou tagarela sem redenção ao vento
e contra o vento de levante expõe
a sua barba como um deus repudiado e rebelde,
e vai de um lado para o outro no semáforo,
sempre de um lado para o outro perseguindo o esquecimento.
Por muito amar, muito perdeu, comentam,
e agora é a sua liberdade contra a memória.
Sempre de um lado para o outro com a sua barba
e o seu casaco em agosto porque todos os caminhos
levam à desilusão.
                               A tristeza é a luz
da loucura ou esta talvez a sombra da dor,
mas a nossa alegria, a dos homens lúcidos,
é a insanidade com método, ou o código que ensina
a esquecer a impostura. Os loucos dão festins
surreais e os lúcidos festins com o sangue
dos nossos semelhantes: guerra, guerra,
e a loucura não consta muitas vezes
como forma de autodestruição.
O Troy carrega uma dívida no pensamento.
O Troy, que foi ferido por uma má carícia.
Tem uma lua desbocada no cérebro, uma maré.
por isso mesmo passa o dia atravessando no semáforo.
Tal como o vinho, tomada em grandes doses só
a loucura entorpece o seu dom caritativo.
Ah, querido, grande Novalis, a poesia cura
as feridas melancólicas da razão.
O Troy, como o mar, de um lado para o outro
do Passeio Marítimo.
                                   Começa-se por ser um deus,
um amante ardente, e acaba-se como louco
que, se pede esmola, a pede ao passado.



António Hernández, O Mundo Inteiro,
Lisboa: Língua Morta, 2012



Antonio Hernández nasceu em Arcos de la Frontera (Cádiz) em 1943 e estudou Ciências da Educação em Madrid. Publicou dezasseis livros de poesia, entre os quais este EL MUNDO ENTERO (2001), que obteve, por unanimidade, o Prémio Rafael Alberti. Dedica-se igualmente à narrativa e ao ensaio.

samedi 9 février 2013

FELICIDADE


Este é o último poema antes de Cristo
Regressar ao albergue nocturno

Roubo e dou o que tenho
Para ter o que não é pouco

Usar os teus chinelos
E sair à noite da tua cama.



João Almeida
in Telhados de Vidro n.º17,
Lisboa: Averno, Novembro de 2012

vendredi 8 février 2013

AZUL DE GIOTTO

 
Quatro meses são passados,
hoje é Sexta-Feira Santa

outra vez no calendário.
À luz de archotes na noite

pintada de azul em fundo,
Giotto captou o beijo

que se não vê na pintura:
sobressai imenso manto

que ilumina toda a cena
pelo avesso da hora

de trevas desse momento
- o manto do próprio Judas.

O falso brilho do pano
convoca ao centro o olhar.

Assim Giotto pintou
- oiro sobre azul, um beijo.



José António Almeida, Obsessão,
Lisboa: &etc, 2010