mardi 24 décembre 2013

PRESÉPIO ANIMADO DA RIBEIRA GRANDE


Ainda todos se lembram do dezembro de 96.
Era dia de natal. Na estrada que leva ao norte
da ilha, sob grande tempestade, trôpego, na
berma, um gato de pelagem branca. Parecia

ferido. Fêmea branca, a que chamariam persa
de pêlo curto, tinha uma chaga na orelha
alastrava pelo crâneo e pela fauce e
olho. Massa disforme de carne e sangue,

pancada de carro ou parede de muro desabado
a ferida. Animal muito manso, delicado e
tímido, deixou que me aproximasse
lhe pegasse e a trouxesse para dentro do

meu carro. Tremia de frio e também de medo e
dor. Enchuguei-a com um pedaço de
flanela, dei por mim chamando-lhe
Princesa: era muito nova, pequena,

de um branco que resistia ao lixo da terra
da quase sarjeta de onde a tirei; olhos
claros, amendoados. A mais
delicada e triste das gatas com a horrível

ferida a alastrar, implacável. Uma
gangrena que exalava cheiro pestilento
- a princesa branca apodrecia no dia
de natal. Havia uma caixa de cartão

no banco traseiro, coloquei-a dentro e
descobri a casa do veterinário. Era uma pasta
de sangue, carne e urina tão assustada
estava. O médico agarrou-a - eles já

cheiraram muita pestiLência, os veterinários -
fez-lhe festas. Era muito meiga. Não
pude olhar enquanto a matava; meteu o
corpo branco, ainda quente, na caixa de

cartão. Levei-a, morta, e com aquele cheiro;
já quase noite. Enterrei-a num pequeno
jardim, bem perto do presépio animado da Ribeira
Grande, que nesse fim de dia de natal ainda

visitei. As lágrimas de nada servem, nem
por uma gata branca a que chamei Princesa,
durante uma escassa hora, a debater-se
com a morte. O sangue, a urina

o cheiro da gangrena. Este é o inferno
dos mortais, a sua beleza e fragilidade. A
morte é uma coisa e a vida, a mesma
coisa. A face da morte é o reflexo da

vida quando se debruça sobre a superfície
da ilha. Luze em todos os natais, suave,
esbatida de traços - palavra de traição
que rodeia o medo, o abandono.


JOÃO MIGUEL FERNANDES JORGE

vendredi 20 décembre 2013

Férias


Entre 21 de Dezembro (sábado) e 6 de Janeiro (2.ª feira)
o Paralelo W estará encerrado.




BOAS FESTAS.

dimanche 1 décembre 2013

Averno 064



Tiago Araújo, Respirar debaixo de água,
com capa de Luís Henriques,
Lisboa, Averno, 2013

dimanche 17 novembre 2013

Domingologia (6)


COMUNIDADE


Quisera um alguidar sob
O pescoço da galinha
Logo por cima da televisão

Quisera uma taça de vinho
A nódoa roxa na camisa
De domingo
O canivete, clac, na ponta da unha

Quisera uma alcunha
Que a toda a gente pagasse
A amizade cheia até cima
A rasar os lábios estendidos

Um croquete, pastel de bacalhau
A recolha do óleo na discrição
Da manga da camisa às calças
E daí advir uma braguilha mais alta

Porque a Fátima (oh, a Fátima de avental!)
Faria cabidela para a finalíssima
Da Taça de Portugal

Fosse hoje domingo e eu convidava
Camões para um copo


Nunes da Rocha
in Cancioneiro da Trafaria, seguido de Alguns Cromos e Basbaques,
Lisboa, & etc, 2008

dimanche 10 novembre 2013

jeudi 7 novembre 2013

Averno 063




"Leio um texto e vou-o cobrindo com o meu próprio texto que esboço no alto da página mas que projecta a sua sombra escrita sobre toda a mancha do livro. Esta sobreposição textual tem por fonte os olhos, parece-me que um fino pano flutua entre os olhos e a mão e acaba cobrindo como uma rede, uma nuvem, o já escrito. O meu texto é completamente transparente e percebo a topografia das primeiras palavras."
 
 
Maria Gabriela Llansol
citada in Silvina Rodrigues Lopes, Teoria da des-possessão,
Lisboa, Averno, 2013

vendredi 1 novembre 2013

FRENTE E VERSO


Nos 11 anos da AVERNO,
algumas das suas capas e originais em exposição
no Paralelo W.



[Bárbara Assis Pacheco]



[Sérgio Eloy]

dimanche 27 octobre 2013

Domingologia (5)


"Que tristeza. O dia levanta-se. Retida pelo sono e pelo sonho, ainda penso que posso viver sem ter que satisfazer as minhas necessidades imediatas. Mas é domingo, dia em que a nostalgia começa ao entardecer, quando sei que amanhã devo levantar-me em perfeita contradição com o tempo. O tempo assusta-se, talvez, eu vou desempenhar o meu papel de mulher que trabalha. […] Se não fosse a imposição do trabalho, muito raramente estaria com outras pessoas, e só em condições especiais. Cada um devia partir para seu lado e canto, durante anos de solidão, ou seja, durante o tempo necessário de fazer outros tipos de conhecimento. É preciso ter outras relações, as relações entre os homens são de matéria plástica, opaca, violenta. O olho vê apenas outro olho; o dente esbarra com outro doente.
Mas hoje ainda é domingo, ainda é manhã escura em que poderei continuar a ser terna com quem está aqui na casa, sem necessária aparência de homem, e com raro espírito de ver."


Maria Gabriela Llansol, UM ARCO SINGULAR – Livro de Horas II,
Lisboa, Assírio & Alvim, 2010

dimanche 20 octobre 2013

NOVO HORÁRIO



Domingologia (4)


A PIMENTEIRA


bem antes do bater do vento no varal
as mãos amanheciam sob as roupas
em gestos ressentidos de domingo
(174 anos depois
um glóbulo branco ataca a infecção
por estreptococos no intestino de João VI
tarde demais) hoje o rio devolve
seus barcos e uma forma mais pura de grito
se preparar sob a pimenteira


Marcos Siscar, Metade da arte,
São Paulo/Rio de Janeiro, Cosac & Naify/7 Letras, 2003

jeudi 17 octobre 2013

NEVE

O quarto, de repente opulento, e da grande janela
Brotavam neve e rosas contra ele,
Em silêncio, colaterais e incompatíveis:
O mundo é mais repentino do que o imaginamos.

O mundo é mais louco, muito mais do que julgamos,
Incorrigivemente plural. Descasco e parto em gomos
Uma tangerina e cuspo os caroços, sinto
A bebedeira de as coisas serem várias.

E as chamas do fogo, com um barulho fervilhante, porque o mundo
É mais desprezível e alegre do que supomos –
na língua, nos olhos, nas orelhas, nas palmas da mão –
Há mais do que vidro entre a neve e as rosas desmedidas.


Louis MacNeice
in Estradas Secundárias - doze poetas irlandeses
sel., trad. e posfácio de Hugo Pinto Santos,
Lisboa, Artefacto, 2013

vendredi 27 septembre 2013

Tiragem especial



Adília Lopes, Andar a pé
com capa e ilustrações de Bárbara Assis Pacheco,
Lisboa, Averno, 2013

[Tiragem especial de 25 exemplares, numerados e assinados.]

dimanche 22 septembre 2013

Domingologia (3)


Porque é que as segundas têm de
estrangular os domingos;
e o outono, o verão;
e o tempo adulto, o tempo mais jovem?
Sob os jardins,
morreram outros jardins.
Atrás do sol,
outros sóis sucumbem,
como roupas velhas num armário.
Ele já não faz perguntas:
apaixonou-se por uma música.


ALAIN BOSQUET
[Trad. Inês Dias]

jeudi 19 septembre 2013

Oferecem-se postais no Paralelo W:


TREZE MANEIRAS DE OLHAR PARA UM MELRO

I.

Entre vinte montanhas cobertas de neve,
A única coisa que se movia
Era o olho de um melro.




WALLACE STEVENS
[Trad. e fotografia Inês Dias - 1/13]

lundi 16 septembre 2013

Leituras paralelas (17)



PARA UM CÃO



Estiveste connosco onze anos.
Uma noite voltámos:
estavas estendido frente ao portão,
o focinho no pó da estrada,
as patas já frias, o dorso
quente ainda.
Agora estás todo
nesta cova que te abrimos.
Mas os onze anos
da tua humilde vida,
o gemer
sempre que alguém partia,
o sofrer de alegria
sempre que alguém regressava
- e à noitinha
se alguém
por uma tristeza sua
chorava
tu lambias-lhe as mãos:
olhavas para ele
e lambias-lhe as mãos -
oh, esses onze anos
do teu mudo amor
está tudo aqui
sob esta terra
sob esta chuva
cruel?
Agonizavas
na gravilha húmida:
levantaste ainda
uma pata - que tremia.
Agora ninguém te protege
do frio.
Já não te podemos chamar.
Já não te podemos dar
nada.
Só as folhas mortas
caem neste recanto
do relvado.
Pensar que algo mais resta
de ti
é impossível:
e por isso a nossa absurda
dor aumenta.


Antonia Pozzi, Morte de uma estação,
Lisboa: Averno, 2012



*


AINDA


Ainda falamos de ti como se continuasses a ser
a mordedura de fogo que incendiará a tarde,
o latido absorvido pela relva
húmida e jovem do amanhecer,
certa maneira de felicidade
reservada apenas às crianças e a alguns animais.

Sussurrando o teu nome, o verão volta a falar,
embora doa e as nuvens pareçam chumbo,
embora se crave o frio no nosso coração
(como as tuas dentadas, mas sem inocência),
e o inverno nos trate como cães de ninguém.


Ángel Mendoza
in Criatura n.º6, trad. Inês Dias,
Núcleo Autónomo Calíope / Associação Académica da Faculdade de Direito de Lisboa, 2011

Leituras paralelas (16)


SEIS SUÍTES


Durante muito tempo quase me arrependi
de não ter comprado uma versão mais limpa,
mais moderna,
das Seis Suítes de Bach para violoncelo solo
(Yo-Yo Ma, por exemplo, tão brilhante).

Hoje, quando vibram duras, misteriosas,
as cordas e as mãos de Pau Casals, na sua velha 
gravação dos anos trinta, Paris e Londres,
sei, com certeza, que o rumor abafado, 
os pequenos estalidos, o volume
um tanto desigual desta música distante,
são o eco mais fiel,
o som mais claro, o hino quebrado,
de uma paisagem que adoece dentro do coração.


Ángel Mendoza,
in Criatura n.º6, trad. Inês Dias,
Lisboa,  Núcleo Autónomo Calíope / Associação Académica da Faculdade de Direito de Lisboa, 2011



*



SUÍTE NÚMERO SEIS


É um grande incómodo não saber tocar 
violoncelo que o pranto seria doutra 
condição: ela gravíssima procurando
pela sala quieta de vez em vez sobre
o parapeito procurando procurando
na lida da luz entre as ramagens a nossa
sentença enquanto eu antecipado - a dor 
em arco - ressumava contra as cordas o
adeus.

E a tristeza imensa ser-me-ia então como
tijolo de subir paredes ao invés
desta mais triste ainda - se nunca lhe achei 
o préstimo - que por dentro vai corrompendo
corrompendo; podia dá-la já pensei
nisso: que talvez ma aceitasse o senhor
Rostropovitch.


António Gregório, American Scientist,
Vila Nova de Famalição, Quasi, 2007

jeudi 12 septembre 2013

Manuel de Castro, 1934 - 12 de Setembro de 1971


LENDO UMA REFERÊNCIA À MORTE DE MANUEL DE CASTRO, 
NO "DIÁRIO" DE PALMA-FERREIRA


Por acaso descubro que este jovem poeta
morreu. Jovem? Já não o seria,
mas é assim que o vejo daquele tempo
em que ele era já protestatário
e ser protestatário não era ainda maneira
de triunfar na vida. Não faço ideia alguma,
e nada importa, que terá escrito ou dito
de mim nestes anos de não saber mais dele.
Nem nada sei das voltas que lhe deu a vida.
Suponho que morreu de doença, de desordem,
miséria talvez, raivosa fúria dia a dia traída
mesmo na roda habitual à mesa de café,
onde um falso calor dar-lhe-ia sobrevida.
Tem sido sempre assim por estas décadas:
morrem os melhores sem bem realizar-se,
e sobra quem se realiza nos cadáveres
que vivos não salvou. E sobram, são os chefes,
têm corte, amantes que lhes pagam ou eles pagam,
e críticos de artigo semanal em coro de louvor.
E aqueles são quem morre – de tudo e de estar vivo,
e servirão de lacrimejo luso
até já nem valerem para ser lembrados
pelos que mereciam ser esquecidos.
E quem não esteja lá, se limpo de assassino,
só pode recordar os olhos do poeta,
a boca retorcida de amargura à espreita,
e os gestos sacudidos com que não falava
senão de alguma esperança e de poesia.


Jorge de Sena, Conheço o sal… e outros poemas, 1974

vendredi 6 septembre 2013

SHIRLEY ANN EALES

Na vitrina lê-se Livros Raros
e Usados sob o azul inclinado
de um toldo – mesmo em frente
à glacial cafetaria de franchise
onde o dia destrata o desejo
e não se pode fumar. Subo
aos pequenos gabinetes
mergulhados no doce bafio
da literatura e percorro de A
a Z as espinhas estreitas

e rachadas da poesia. É o sítio
mais vazio de Novembro
e o que mais me reconforta;
o livro que escolho, por metade
de uma libra, traz no frontispício
um nome e uma morada: Shirley Ann
Eales, de Scottsville – um sumido
autógrafo de maiúsculas magras
e triangulares onde a imaginação
encontra por enquanto pretexto

e oxigénio suficientes para arder.
O livro teve outra existência,
pertenceu a outra casa, a outra mesa
de cabeceira – e o pensamento,
de tão óbvio, conjura de repente
uma vertigem, é um corredor
abrupto para a imensidão do mundo
onde trafica o acaso. Ah, sabemos
que a vida é improvável se damos
por nós a cismar, a meio de uma tarde

insípida, numa mulher desconhecida
que lia poemas em Scottsville, nos anos
70. Mas haverá aqui alguma espécie
de sentido, algum sinal guardado
para alguém mais sábio ou inocente
do que eu? Não sei quem és
nem onde estás agora, Shirley Ann,
mas como seria belo se pudesses
um dia encontrar, por obra da mesma
sorte, o teu nome nestes versos.


Rui Pires Cabral, Longe da Aldeia,
Lisboa: Averno, 2005

mardi 27 août 2013

JEJUANDO


Às vezes convém desprendermo-nos,
tirarmos da boca o mais particular.
Negarmos o apetite afirma-nos.
Perdermos a sorte,
                              desalojarmo-nos,
sairmos de casa por um fogo
que limpe de impurezas a nossa casa.

Deixarmo-nos ir, em ondas,
declinar quem somos e quem fomos.
Às vezes ajuda-nos renunciar
às nossas certezas, proceder
afiando,
             libertando-nos
das nossas ilusões.
                             A moderação
de estar entre as coisas sem desejo,
para desejar estar entre as coisas.

Às vezes o vazio
em que parece que flutuamos
é o mais absoluto que nos preenche.
Muitas vezes convém ser mendigo
da nossa realidade,
                              ficar em jejum 
do que mais amamos e nos ama.
Ficar de lado,
                      vendo-nos passar,
dando-nos a esmola de não darmos
outra esmola senão a de continuar vivos.

Convém endurecer,

                               calejar as subtilezas.
E regressar ao mundo, vorazes,
com novas ânsias. 


Carlos Marzal, Ánima Mía,
Barcelona: Tusquets, 2009

[Trad. Inês Dias]

lundi 26 août 2013

Regresso de férias




O Paralelo W regressa de férias já amanhã (3ª feira)
no horário habitual (14h-20h).

samedi 24 août 2013

Leituras paralelas (15)


nunca mais quero escrever numa língua voraz,
porque já sei que não há entendimento,
quero encontrar uma voz paupérrima,
para nada atmosférico de mim mesmo: um aceno de mão rasa
abaixo do motor da cabeça,
tanto a noite caminhando quanto a manhã que irrompe,
uma e outra só acham
a poeira do mundo:
antes fosse a montanha ou o abismo -
estou farto de tanto vazio à volta de nada,
porque não é língua onde se morra,
esta cabeça não é minha, dizia o amigo do amigo, que me disse,
esta morte não me pertence,
este mundo não é o outro mundo que a outra cabeça urdia
como se urdem os subúrbios do inferno
num poema rápido tão rápido que não doa
e passa-se numa sala com livros, flores e tudo,
e não é justo, merda!
quero criar uma língua tão restrita que só seu saiba,
e falar nela de tudo o que não faz sentido
nem se pode traduzir no pânico de outras línguas,
e estes livros, estas flores, quem me dera tocá-los numa vertigem
como quem fabrica uma festa, um teorema, um absurdo,
ah! um poema feito sobretudo de fogo forte e silêncio


Herberto Helder, Servidões,
Lisboa: Assírio & Alvim, 2013


*




Ernesto Sampaio, As Coisas Naturais,
Lisboa: Averno, 2013

lundi 5 août 2013

Leituras paralelas (14)







AAVV, Nós, Os Desconhecidos
org. Daniela Gomes e Rui Pires Cabral,
Lisboa: Averno, 2012

dimanche 4 août 2013

Domingologia (2)

SEGURANÇA


Uma última volta pelas divisões.
Confirmo se está tudo fechado,
se não há a remota possibilidade
de alguém conseguir pelo lado de fora
nem que seja pequena nesga de
luz. Repito seis vezes a operação.
Depois é domingo. O domingo,
di-lo o dicionário dos símbolos,
é o dia da responsabilidade
e da cultura, dos que enchem as ruas
com o seu vazio fecundo. Dia de
descanso e de periferias,
de gente que se entrega aos círculos
obsessivos da fúria, como se a
sobrevivência, de sexta a segunda,
fosse acima de tudo uma espera
com fuga, o sonho de grandes encontros
onde todos são amigos. Interrompo
o descanso, suado, aflito
e verifico novamente se tudo
permanece fechado, seguro.


Carlos Bessa, Em Partes Iguais,
Lisboa: Assírio & Alvim, 2004

mercredi 3 juillet 2013

FRAGMENTO (NARRATIVA)


ao Laureano, in memoriam


"A democracia manda-nos falar e eu murmuro
excita-nos a grito e silencio. Depois a tirania
obriga a segredar. Então eu falo.
Impõe-nos o silêncio. É quando grito".
Assim ele ia, neste lucubrações, em grande perigo
de estranhamento e dor sob o céu baixo
das nuvens suburbanas. "De mim sai o silêncio
como um grito".  E caminhava. Nomes bárbaros
de indústrias e comércios seguiam-lhe o andar
("são nomes de demónios?, de gigantes") e as fachadas
irradiavam luzes de obscuros interiores.
Assim ele ia atento, regressando, em grande perigo.

"Não falo a vossa língua, não pertenço a esse código
por todo o lado oculto, o Livro não escrito
de onde saem ordens e discursos criminais".
Assim ele ia em combate, contrapondo voz humana
a seduções difusas e palavras-talismã.
E entretanto Outono, o fim da tarde. "A inteligência
comove-se a olhar seu próprio tempo." Alteou-se-lhe
de súbito o esterno, um arco tenso
sobre a democracia. "Não seja nunca o sonho
a comandar a vida. Que a voz que em mim compõe
me seja dura." E apressando-se
assim ele ia orando, de regresso, em grande perigo.


Carlos Poças Falcão
in Telhados de Vidro n.º11,
Lisboa: Averno, Novembro de 2008

lundi 1 juillet 2013

IN THE PLEASURE QUARTER


Being foreigner is the democracy that allows the Nigerian,
in all the accoutrements of a gangsta, to adress me as brother

and offer a special discount to a nice place where the girls are all foreign
- Russian, Brazilian, Australian - and all speak english.

We are, perversely, brothers: of the same continent,
slave and master, ear and mouth,

in the weird dialectic of Shinjuku, this thoroughfare
where crowds blur into clouds.

          What tradewinds brought him here? and those girls? and me?

Our common tongue is illusory, necessary, a kind of coin
minted by being stamped on.
 
 
 


vendredi 28 juin 2013

FERNANDO GUERREIRO




A acidez dos instrumentos -
ou a letra miúda, de que se
serve para debruar a ouro
o interior dos músculos -
permite-lhe retomar o ofício
opaco que para si, com o tempo,
se tornou a poesia. Se dela
se acercasse, lhe medisse
os membros - a distância
que vai do cóccix à nuca -
talvez descobrisse o número
que, uma vez repetido
(les enfants sont morts
de tant regarder les brumes),
lhe devolvesse o mundo
em que tudo acontece
no rombo que, ao cair,
em si produzem os sentidos.
mas talvez fosse preferível
não escrever, partir à aventura...
Sobre a mesa, o coração,
já com alguns meses,
atraía a si os ventos,
movidos por pássaros
esquecidos um dia
de ter morrido.
Vento desossado,
como o sentimento...
Sim, o mundo acabara -
o poema sabe-o .
e dele só restam palavras
a que os espectros se abrigam,
para repetir gestos
que as paredes devolvem
já exauridos (outro diria
limpos) de todo o sentido.


in Telhados de Vidro  n.9, 
capa dupla de José Francisco Azevedo,
Lisboa: Averno, Novembro 2008 




jeudi 27 juin 2013

POESIA


A bala no cérebro de Maiakóvski. A tuberculose de Álvares de Azevedo. O seppuku de Yukio Mishima. A miséria de Orides Fontela. A orelha de Van Gogh. A roupa puída & suja de Edgar Allan Poe. O tráfico de fogo de Arthur Rimbaud. A pindaíba de James Joyce. Os processos de Allen Ginsberg. O gás de cozinha de Torquato Neto. A cirrose hepática de Paulo Leminski. O vômito de Jimi Hendrix. O manicômio de Antonin Artaud. O salto de Ana Cristina Cesar. O tiro de espingarda de Hunter S. Thompson. A mágika sem lágrimas de Aleister Crowley. A gravata de Santos Dumont. O Hotel Inglaterra de Serguei Iessiênin. O desespero idílico de Werther. A convicção de Carlos Marighela. O cárcere de Rubin Carter. Os narcórticos & o forno de Sylvia Plath. O maligno plano virtual de Yoñlu. A heresia de Giordano Bruno. O mar salgado de Hart Crane. A extradição de Olga Benário Prestes. O tiro natalino no peito de Raul Pompéia. A morfina de Jack London. As ondas de Violeta Parra. O Sena de Paul Celan. O desespero de Walter Benjamin. O hospício de Lima Barreto. Os cinco frascos de arseniato de estricnina de Mário de Sá-Carneiro. A conversão de José Vicente. A forca de Ian Curtis. A crucificação de Jesus Cristo. A tara de Pier Paolo Pasolini. O silêncio de Buda. As quarenta doses de uísque de John Bonham. O chumbo na massa encefálica de Kurt Cobain. Os flagrantes delitros de Fernando Pessoa. O copo de vodca sobre a cabeça de Joan de William Burroughs. Os romances de Roberto Bolaño. A queda do helicóptero de Randy Rhoads. A coragem de Ernesto Che Guevara. As janelas de vidro de Unica Zürn. A calma do bosque de Wendy O. Williams. A sífilis nervosa de Manuel Laranjeira. A Praça da Glória de Pedro Nava. O câncer de próstata de Mario Monicelli. A gentileza do Profeta. A solidão do Tartaristão de Marina Tzvietáieva. Os radiogramas de João Cândido. O ataque cardíaco de Antonio Calixto. Os últimos tostões para Regine de Søren Kierkegaard. A decapitação de Zumbi dos Palmares. As proposições factuais da Primeira Guerra de Ludwig Wittgenstein. O esfolamento & o monóxido de carbono de Stuart Angel Jones. A queda de cinco andares de Jeanne Hébuterne. Os dedos triturados de Victor Jara. Os trilhos do Engenho Novo de Marcelo Gama. Os dezesseis tiros de calibre 38 & 45 no coração de Malcolm x. Os dentes no estômago de Joaquim Câmara Ferreira. O violento traumatismo craniano de Steve Biko. O rebolado de Harvey Milk. A copa do álamo de Frei Tito. O câncer no ovário de Clarice Lispector. O sonho de Martin Luther King. O fim do sonho de John Lennon. As 32 fugas, os 73 processos, os 530 inquéritos por roubos assaltos & estelionatos & as 28 facadas no corpo de Lúcio Flávio Vilar Lírio. A angústia de Graciliano Ramos. A cadeira elétrica de Nicola Sacco & Bartolomeo Vanzetti. O tiro no coração de Jacques Rigaut. A valentia de Frank Zappa. Os 109 dias de tortura de Eduardo Collen Leite. A cabeça desaparecida de Antonio Conselheiro. O misticismo de Guimarães Rosa. Os mais de cem tiros na carcaça de Cara de Cavalo. A cachacinha & o torresminho de Hélio Oiticica. A arma (presenteada por Fidel Castro) de Salvador Allende. A estrela no buraco dos olhos & o diálogo da tristeza com o fim de Cesare Pavese. A overdose de barbitúricos de Alejandra Pizarnik. A coragem, o amor, Dorine & André Gorz.


Fabiano Calixto
in Telhados de Vidro n.º 16, Lisboa: Averno, 2012

jeudi 13 juin 2013

Dia de Santo António


Hoje, e como habitualmente, 
o Paralelo W estará aberto 
entre as 14h e as 20h.




E amanhã (6ª f), pelas 22h,
Rosa Maria Martelo apresentará o #3 
da revista CÃO CELESTE.

mardi 11 juin 2013

CAMÕES E A TENÇA


Irás ao paço. Irás pedir que a tença
Seja paga na data combinada.
Este país te mata lentamente

País que tu chamaste e não responde
País que tu nomeias e não nasce.

Em tua perdição se conjuraram
Calúnias desamor inveja ardente
E sempre os inimigos sobejaram
A quem ousou ser mais que a outra gente.

E aqueles que invocaste não te viram
Porque estavam curvados e dobrados
Pela paciência cuja mão de cinza
Tinha apagado os olhos no seu rosto.

Irás ao paço irás pacientemente
Pois não te pedem canto mas paciência.

Este país te mata lentamente.
 


SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN

mercredi 5 juin 2013

No próximo sábado (dia 8)...

... o Paralelo W encerrará às 17h, 
excepcionalmente e por motivos de força maior.


jeudi 30 mai 2013

ELOGIO DA USINA E DE SOFIA DE MELO BREINER ANDRESEN


O engenho banguê (o rôlo compressor,
mais o monjolo, a moela de galinha,
e muitas moelas e moendas de poetas)
vai unicamente numa direção: na ida.
Êle faz quando na ida, ou ao desfazer
em bagaço e caldo; êle faz o informe;
faz-desfaz na direção de moer a cana,
que aí deixa, e que de mel nos moldes
madura só, faz-se: no cristal que sabe,
o do mascavo, cego (de luz e corte).


2.
 
Sofia vai de ida e de volta (e a usina);
ela desfaz-faz e faz-refaz mais acima,
e usando apenas (sem turbinas, vácuos)
algarves de sol e mar por serpentinas.
Sofia faz-refaz, e subindo ao cristal,
em cristais (os dela, de luz marinha).
 
 
 
João Cabral de Melo Neto, A educação pela pedra,
Rio de Janeiro: Editôra do Autor, 1966
 

mercredi 29 mai 2013

Luís de Camões

Julga-me a gente toda por perdido,
vendo-me tão entregue a meu cuidado,
andar sempre dos homens apartado,
e dos tratos humanos esquecido.

Mas eu, que tenho o mundo conhecido,
e quase que sobre ele ando dobrado,
tenho por baixo, rústico, enganado,
quem não é com meu mal engrandecido.

Vão revolvendo a terra, o mar e o vento,
busquem riquezas, honras a outra gente,
vencendo ferro, fogo, frio e calma;

que eu só em humilde estado me contento,
de trazer esculpido eternamente
vosso fermoso gesto dentro n'alma.




dimanche 26 mai 2013

António Osório x2


in Décima Aurora,
Lisboa: A Regra do Jogo, 1982






in A Luz Fraterna - Poesia Reunida
Lisboa: Assírio & Alvim, 2009

dimanche 19 mai 2013

POEMA PARA UM PÁSSARO QUE O LUIS MANUEL GASPAR NÃO PINTOU

Morreu-me entre as duas mãos o pássaro
vadio, era o meu peixe azul num aquário,
o fanatismo de ser de um clube, o meu ídolo
com as suas pequenas patas de barro.
Visitava-me muitas vezes, cheguei a crer
que era mais do que um, mas não, era
sempre o mesmo, o meu pássaro com asas
de um negro radioso, talvez não fosse negro,
talvez fosse às riscas, mas o bico, esse
era amarelo torrado e nunca há-de haver outro
como ele. Não lhe dei de comer, porque ele
não precisava, ele desenvencilhou-se sozinho,
acompanhou-me na velhice dos dois sem nada
exigir e agora, de asas caídas e patas trémulas,
veio morrer às minhas mãos o meu amigo.



Helder Moura Pereira, Pela parte que me toca,
Lisboa: Assírio & Alvim, 2013

vendredi 17 mai 2013

O 1º exemplar...



... do 1º livro editado pelo Paralelo W,
no seu 1º aniversário.

[Disponível a partir de 22 de Maio]

vendredi 3 mai 2013

Rui Pires Cabral

 
PLANO DE EVASÃO

Que mais podemos fazer?
Este amor é um país cansado

que não nos deixa mudar.
O medo cerca as fronteiras

e a capital é Nenhures,
cidade de perdulários

e pequenas ruas tortas
onde vem morrer a noite -

aqui estamos ambos sós,
desunidos, extraviados,

não há táxis na praceta
nem cinzeiros nos cafés

e perdemos os amigos
entre as curvas de um enredo

que deixámos de seguir.
Mas não era nada disto

o que tinha na cabeça
ao começar a escrever:

os versos chamam o escuro,
abrem os portões ao frio

e eu quero estar nas colinas
do outro lado do rio.

 
- in LADRADOR,
Lisboa: Averno, 2012

mercredi 24 avril 2013

Alexandre Sarrazola





peixe-aranha: patti smith: radio ethiopia



tenho as margaridas do teu vestido de verão; azuis e amarelas
o pêlo da raposa pelos ombros e o chapéu de lã não me enganam
a chuva oblíqua a fugir do outro texto; do texto do outro
"não entres nesse quarto"; a porta sempre fechada.

éramos secos de carnes e tínhamos cortado as mãos.
de rimbaud já só aquela faixa de sombra sobre o lado direito do rosto
a ampola de cloreto etílico pousada no chão de losangos pretos e brancos
o éter aspirado num lenço que se volatilizou como uma ave maligna
"é para a picada de peixe-aranha".

a banheira de esmalte estalada no rebordo
a água fria; os teus gatos que acordavam
o teu vestido de margaridas pousado num banco da casa de banho
e o efeito da ampola como um relampejo letal

a polaroid desse dia já começou a desvanecer-se
e não afoguei ainda a imagem do silêncio
virá comigo com os gestos por fazer
para o findo poço de mercúrio


in Thaumatrope,
Lisboa: Averno, 2007

mardi 23 avril 2013

Pádua Fernandes

 
[...]

Aqui era um restaurante popular. Mas temos que pensar no futuro. Quando inauguro creches já penso em cemitérios. Tínhamos o prédio conjugando restaurante popular e presídio. Economia das instalações. O Estado acolhe todos em sua boca... imensa. Assim a gente evita greve de fome. Gente primitiva não quer o progresso nem empreiteiras. Aqui nenhum cidadão de verdade foi espancado por causa disso.
Não era este o discurso. Perdoem. Achei: aqui era um restaurante popular. Hoje, inauguramos esta demolição.
Preparamos o futuro.
 


 in Cálcio,
Lisboa: Averno, 2012
 
 

samedi 20 avril 2013

Rui Nunes

2

Uma arma é
a intimidade mais antiga que habita uma casa:
na penumbra das salas, qualquer objecto inicia uma guerra.
Porque as palavras resvalam por um corpo de ossos
mas a mão incerta da criança
descobre a solidez de uma pedra,
de um reflexo na toalha ao lado do pão
ou na unha um prego cravado na pele.
:
Uma criança mede o futuro:
com a imprecisão dos pequenos golpes
aprende a minúcia assassina de um movimento.

 
 in Ladrador,
 Lisboa: Averno, 2012
 
 
 
 
[Fotografia de Esther Bubley,
"Boys watching the Woodrow Wilson high school cadets", Washington, 1943]
 

mercredi 17 avril 2013

Averno #057


COVA DO LOBO


Para a bisavó Jaquelina e o tio Nunes,
que fazem parte da minha primeira memória


A um nome antigo,
com o sangue afiado pelo tempo,
devemos pedir segredo,
ouvidos capazes de adivinharem
a queda da primeira folha,
promessas de uma noite 
mais escura, encrespada.

Mas aqui até as bocas de lobo são
um desengano em forma de flor, 
não como esses lírios de Júlio César,
a estaca no fundo à espera
da alma do último inimigo.
À violência acossada e ciosa da lenda
restou apenas o pescoço dos cães
no limite da humanidade,
o sacrifício da pedra que se abate 
ritualmente sobre as amêndoas,
talvez um joelho esfolado em silêncio.

(Uma vida inteira na órbita 
repetida de uma cadeira de balouço,
entre o sol do tamanho de uma baga
poeirenta e a fonte cercada de mãos
que sabem prender sem amarrotar.) 

Assim de frágil é a memória do presente.
O contrário da vida depois,
lá fora, entre a alcateia.
Nunca mais estaremos tão possuídos 
pelo acaso, tão confortáveis junto ao mal,
como antes de o reconhecermos
e destruirmos as palavras que o diziam.


Inês Dias, Um raio ardente e paredes frias,
Lisboa: Averno, 2013



dimanche 14 avril 2013

UM GRANDE SILÊNCIO


     De súbito, um  grande  silêncio invadiu  a casa. Os três  gatos a
dormir. Passagem a limpo dêste poema.

     A soledade alberga uma estrêla infinita.
     A doença é a saúde do poeta.

     Sento-me a escrever e a pingar sangue, o qual já alagou o chão
e, em fio, se esgueira por debaixo da porta.
     O sangue pinga da caneta de tinta permanente.


António Barahona, As Grandes Ondas,
Lisboa: Averno, 2013

vendredi 12 avril 2013

CONVITE

 
MAFALDA CAPELA
ALEXANDRE SARRAZOLA
 
 
CONSTELAÇÃO VEGA
  
 
 
No dia 20 de Abril (sábado),
às 22h,
no Paralelo W.
 

mercredi 10 avril 2013


Julgavas, então, que a poesia era um discurso
de palavras em sentido? Sei quanto a musa aprecia
glória, poder e uniforme, quanto aguarda
o cavaleiro que produz.
A vida, afinal, anda lá fora, antes da folha
ter passado a prensa;
a mais pequena árvore é verde eterna, comparada ao arbusto
que, mal tocada a haste, se desvai em fumo.

Por isso eu fico lendo as crónicas, as lendas,
o jornal que, bem ou mal, cruza as palavras com o tempo,
e contudo! quando o lábio se engana, solta
a mais aguda fífia do trombone,
e de repente o corpo sabe a gente, e então se diz: eis
a verdadeira e pura poesia! pois seria, talvez,
somente a tua mão, cobrindo a folha.


António Franco Alexandre

jeudi 4 avril 2013

Leituras paralelas (13)


Contra este Emporium das luzes que se vem alevantando – das luzes animadas, das luzes ecrãs-espelho: baças, vazas, vazias. Contra isto tudo: a sombra! Não a que faz o animatógrafo ou o teatro chinês, que essa ainda anima, essa está ainda ao serviço da distracção, do lúdico que o império propaga. Mas a outra, aquela que o animal escolhe para se recolher, para ter as suas crias, a sua criação; a que ajuda a lanterna de Diogenes a aluminar a procura; a que faz do farol guia para passar ao largo; a que faz a árvore dar cogumelos.

A intolerância que este mundo mostra ter às sombras está cada vez mais patente, é feita coisa para a ocupação de não estar desocupado. Novas mentes luminosas trazem-nos um mundo de led’s , de i-touch’s, de manos sem las manos,  de smart’s mas só nos phones e nos carros.

Quereis a maçã do conhecimento? Tomai a imagem marca com a trinca da Eva! É branca, dá luz, meus Narcísicos num Gold mundo! Vamos ver o mundo por um tubo! Allez, que este já vai pró You Tubo! Nada apaga mais do que a luz e é essa que é preciso desfocar. Andam a defecar às claras! Borra-se tudo menos as lâmpadas que nos podiam dar um pouco de penumbrea – que penúria!

No desassombro, tudo é irrisão, e tudo é feito para irradiar. Já não é risível sequer. A piada esgotou, a piada… nem por piedade. Smile (dois pontos parêntesis direito). Cá o «je» que se habituou a carregar só nas vogais de Deus carrega o seu smart phode e inclina-se mais para as reticências.

Os outros? Que inferno! O outro, é na busca do outrora que o acho, e onde as mentes brilhantes só vão buscar o retro e ipsis recto sai um brilhante novo! À volta, estes outros, e isto é o perigo, me parecem cada vez mais iguais uns aos outros. Os vossos apetrechos que dão luzes para vos compensar a falta de uma aura, é a nova aurora – ó-fusca! É o revólver de Goering que sem a sombra da dúvida impera e gora.

Por que nos fazem esquecer que estamos dentro do sol e fazemos a sombra?

Por que é que este tempo não quer verbo que não seja o presente mais-que-perfeito?

O Presente não existe! O presente, é um participo passante!…







"Como erguer um contraponto à economia que se tornou geral, aos interesses que ela multiplica, sem incorrer na perseguição imediata ou na fome?
Como fazer valer a força de três ou quatro contra o império de todos?
Estes três ou quatro escondem-se; fundam sociedades secretas frágeis; são forçados a fingir partilhar os costumes joviais e os gestos agressivos dos bárbaros; exibem-se nas suas cidades, nos seus templos, nos seus anfiteatros. Mas no canto, ou seja, in angulo, ou seja, ao abrigo da sombra, secretamente, passam uns aos outros, como se fossem fotografias pornográficas, em vez de folhetos sectários, ou publicitários, ou nacionais (ou seja, em vez de notas do banco), obras publicadas em nove exemplares, ou recordações de livros, ou reprografias dos próprios livros antigos que, entre todas as mercadorias, não mercadejam nada.
Estas página fotocopiadas e cizentas, imagens sem imagens, furam o tempo.”


Pascal Quignard, As Sombras Errantes – último reino
trad. de Maria Piedade Ferreira, 
Lisboa: Gótica, 2003

CASTELO DA BAIXA-CHIADO


As escadas, no coração da terra.
à hora tardia de julho. Cantava, na galeria
deserta, um mundo a que nunca pertenci. 


Cantava, cantava sempre. A ondulação do verso subia
das águas fundas do Tejo, desfazia num murmúrio
a mágoa da sua voz

lançava, não a parede
de um fado, mas o túmulo do destino: violência inerte e fértil
dissolvia no céu vazio do verão

nos azulejos em eco
viajava no pátio e nas veias da cidade
sem valor e sem préstimo a que possa recorrer, sem
vislumbre de qualquer esperança

era a toada mercadora dos vermes brancos do fado
«que queres ouvir e ver e tão perto?» (parecia perguntar-me) e
avançava na espessa noite da terra
deteve-se no meu caminho

junto às ribeiras do rio, perdia-se
resto de lívida luz. A voz já não cantava
medida da perdição

bem próximo da minha pele. Alguém
apaixonado, compreenderia num olhar
o que não tinha nome em nenhuma outra língua

nem lugar em nenhuma outra pátria. A carruagem corria (taça de
metal branco) o timbre da sua voz
pela noite de Lisboa
sorte que está connosco
pronta a gerar plantas que envenenam a vida

num leito de folhas mortas.





João Miguel Fernandes Jorge, Castelos I a XXXV,
Lisboa: Averno, 2004