dimanche 23 décembre 2012

O NATAL - SCHERZO

 
Boas notícias. Cientistas estão em vias
de sintetizar o princípio do Natal,
criar uma espécie de reforço vitamínico
para a bonomia sazonal.
      
A droga actua sobre os centros nervosos
onde se crê que reside a aptidão
para gerar ódio, malquerença e egoísmo,
e faz de cada homem um irmão.
     
Tem um contra: só actua em Dezembro.
No resto do ano é inócua, não alcança.
Mas talvez seja melhor assim:
que diabo, ser sempre bonzinho também cansa.
      
De futuro, um mês antes, já se podem ingerir
pílulas de Natal após as refeições,
de forma que, quando o dito por fim chegue,
estejam repletos de Natal os corações.
     
Quer dizer: está ao nosso alcance
interagir pela química com o calendário.
Passarmos a tratar o espírito do Natal
como se fosse uma gripe ao contrário.
       
Mas muitos torcem o nariz e dizem
que a droga é no fundo uma espécie de vacina
- e nada mais do que isso -
contra o medo de ver o fundo da latrina
 
 
 
A. M. Pires Cabral
in Merry Christmas, Lisboa: Averno, 2006
 

Hoje, domingo...

o Paralelo W está aberto entre as 14h e as 20h.

Depois encerra para férias 
e só reabre a 3 de Janeiro do novo ano. 




samedi 22 décembre 2012

Hoje à noite:


Paralelo W,  22 de Dezembro de 2012, 22h

na noite apócrifa do lançamento de 
Merry Little Christmas (Averno 053)
Diogo Dória lerá poemas de Natal. 



[Foto daqui]

vendredi 21 décembre 2012

Hoje à tarde (18h):

Leitura de poemas 
de FERNANDO ASSIS PACHECO
por NUNO MOURA


LÍRICA DE PARDILHÓ


Então acordo e sinto a meu lado
o esplendor tranquilo
da amada que respira
adormecida deitada sobre o flanco
vertendo a prata dum sorriso

nas ravinas da noite
esferas cantam a alegria
é um sítio de grama rociada

e passam horas
durante as que da rua
ouvindo vozes turvas
eu ficarei teimando
na claridade a todo o preço

de que me falam as aves


- Fernando Assis Pacheco

jeudi 20 décembre 2012

OXFORD STREET, ESQUINA COM ORCHARD STREET: A GAITA DE BEIÇOS



Se chegássemos à alegria por uma escada de incêndio
tu arranjarias maneira de descer tocando
a música modesta sempre a mesma
que em Setembro na tua cadeira de rodas
se a alegria: duas três frases curtas
sopradas ao passante (e o cabelo
encardido (a sujidade do pobre vista à luz
se arranjasses maneira: um belo salto
cheio de swing

acaso vou agora até ao fim dos meus anos
lembrar-te como estavas
sentado de través tocando com brio
dissimulado à esquina: isto em Setembro
sob o oiro de um sol que bate forte
a música nos beiços (qualquer coisa
de rarefeito e por aí
tão brutalmente alegre - diria comovente (1)

se a alegria: o que chamamos alegria
com o pudor da meia idade
tu aqui tocando por alguns peniques
duas três frases muito curtas
os pombos que baixam da cornija
os autocarros (sopradas como exemplo

se então houvesse um fogo em todos nós
e a tua boca (o sebo no casaco: arranjarias
maneira de levar-nos os que já
não ouvem nem se falam nem
(alegre; sujo e alegre
inquietante neste mundo
onde comemos até o coração


(1) - que esperar da Europa?/ as ruas pardas/ desidratam a imaginação/ o século XXI devia ser amanhã



Fernando Assis Pacheco

mercredi 19 décembre 2012

Leitura de poemas

de

Fernando Assis Pacheco 

por

Nuno Moura


Paralelo W, sexta-feira, 21 de Dezembro, 18h.

mardi 18 décembre 2012


Convoco a luz para o lugar
da morte. Tu vibras numa vertical
do deserto, em plena velocidade
fracturada. Há nuvens de pontos
na dobra da visão, nenhum limite.
Exposto como um ferimento, que soberania
exerces no vazio? Assim se arruinaram
as arquitecturas: armadilhar a casa
ficar preso dentro de uma sala.
Fechar uma parede para abrir uma janela.



Carlos Poças Falcão,  Arte nenhuma (poesia 1987-2012),
Guimarães: Opera Omnia, 2012

samedi 15 décembre 2012

CANÇÃO



"triste como um rio, sereno como as pontes..."



fio d'água transparente
balança de luz
na noite que se alarga
serena como um rio
serena como as pontes

estátua que conduz
o cintilar do negro
na noite que se alarga
serena como um rio
serena como as pontes

o gato que se enrola
a limitar o brilho
que identifica o negro
que a noite percorre
sereno como um rio
sereno como as pontes

palácio que esqueci
teu corpo já estrangeiro
no nome tão distante
felino ainda na noite

triste como um rio
sereno como as pontes


Manuel de Castro, A Estrela Rutilante,
ed. do autor

lundi 10 décembre 2012

"O mundo está escuro: ilumina-o."

Leitura de poemas
por Marta Chaves e Inês Dias,
esta 6ªf (dia 14), pelas 22h.


samedi 8 décembre 2012

FERIADO: novo horário e leitura

Hoje é feriado, mas o Paralelo W vai estar aberto tarde (14h-20h) e noite (22h-00h).

Pelas 22h, Abel Neves lerá poemas seus.



O QUE PENSAS QUANDO OLHAS PARA MIM E NÃO DIZES NADA



Há um jardim com anões de barro quando não falas
mas isto sou eu a dizer e posso enganar-me e     aliás
para que serve o que digo?
Estás a pensar na chuva que há-de cair só nas tuas mãos
nas minhas     que me importa?
É a chuva?     Pensas nela enquanto olhas
para mim   Que mundo é este?   Fala
diz qualquer coisa
ou deixa que assim seja por todos os séculos
ou eu ou a chuva
muito bem     não podes decidir
É um prazer saber-e    Amen


Abel Neves, Eis o amor     a fome e a morte,
Lisboa: Cotovia, 1998

Editoras / Publicações disponíveis

Antígona
Assírio & Alvim
Averno
Boca
Bruaá
Calambur
Cão Celeste
50 Kg
Dois Dias
&etc
Fahrenheit 451
frenesi
Língua Morta
Opera Omnia
Orfeu Negro
Pianola
Piolho
Pre-Textos
Quarto de Jade
Relógio D'Água
Revista Grisu
Revista Intervalo
Tea For One
Teatro de Vila Real
Vendaval

Edições de autor

...

jeudi 6 décembre 2012

ABEL NEVES


PRIMEIRAS NEVES


muitíssimas vezes     na impossibilidade de dizer as boas palavras
numa composição que possa seduzir quem nos ouve
procuramos refúgio na escrita
aqui temos abrigo
acendemos o lume e acrescentamos o que podemos à evolução dos
                                                                                              mundos
os lábios      que poderiam estar activos no acto da fala
são uma fronteira entre a alma e as cinzas
lá fora     as primeiras neves
In Deitar a Língua de Fora,
Lisboa: Língua Morta, 2012



mardi 4 décembre 2012

Esta 6ªf...

pelas 18h, Paulo da Costa Domingos lê poemas do seu novo livro:
Versos Abrasileirados (&Etc, 2012)
ESTADOS GERAIS
A palmada nas costas
acompanha a rodada paga;
o obrigado-meu-povo
com a sacanada feita;
o desencarceramento dentre
chapa em harmónio;
as harmonias entrecortadas
pela brusquidão de serras;
os prefácios, as badanas
e os tumultos das massas;
agulhas nas virilhas
para uma ligação via satélite.
Uma côdea dura no ânus
concita o sorriso partidário;
a macaca caída das árvores
durante a última ceia;
o burro que ri no hemi-
ciclo e a vaca na palha;
a santa aliança divorciada
da sagrada família.

PAISAGEM

Da varanda, o cerro de oliveiras desce
a curva da muralha
num castanho desbotado de Arraiolos. Ao rés
da casa, azinheiras despertam na superfície da
terra, raízes, emaranhado de seiva
 
o guizalhar do gado no pastoreio, além
e depois Pavia - na distância, hei-de voltar
voo poisado
neste irrepetível instante
de negra e branca pêga. No seu palrar quebrado
 
está a dizer-me: Identificas Portugal
com qualquer sombra de rosto, folha caída,
desfazer de onda. Nem sequer pensas
no pouco exacto que és - coisa alguma, já
ninguém é Portugal.
 
Agora
desceu a noite
na cor da pedra
sob a lua nova de julho
inerte
o redondo castelo
não há nada a dizer
quando se vai directo
à porta da traição.
 
 
João Miguel Fernandes Jorge
in O Próximo Outono, Lisboa: Relógio D'Água, 2012

samedi 1 décembre 2012

PALAVRAS COM ÁGUA


A chuva gosta de escrever. Sobre o vidro das janelas, na carroçaria dos automóveis imprime as suas obras. E quando cai sobre um papel ouve-se o ruído de prazer com que o pisa. Sabe traçar uma fenda na superfície, como fazia a velha tipografia, depois arredonda-a. E, sobretudo, se houver algo de escrito, desbota-o até o apagar. O que a chuva escreve prevalece sobre qualquer tinta. E no dia seguinte, quando o papel tiver secado, ficam gravados os seus sinais, uma iconografia quase cuneiforme que é secreta e que é também para sempre. 


José Ángel Cilleruelo


vendredi 30 novembre 2012


Sábado, dia 01 às 22h

VLADIMIR HOLAN

Leitura de poemas e algumas notas biográficas
por Rui Miguel Ribeiro


mercredi 28 novembre 2012

AMANHÃ:


Averno 051:

[...]

Os tempos estão muito enganados.
O país procurava as palavras . Sem saber
procurava um verso, soluçando uns
números, perdia-se, perdia a voz.
E então chegou o tempo dos poetas.



Diogo Vaz Pinto, "Lobos"
in Bastardo, Lisboa: Averno, 2012
 
[Já disponível no Paralelo W]


Averno 050:

 
 
Já disponível no Paralelo W.
 

lundi 26 novembre 2012

Novidade:

 
 
 António Barahona, Maçãs de Espelho,
Lisboa: Língua Morta, 2012

dimanche 25 novembre 2012

vendredi 23 novembre 2012

P de Parabéns (II)

NASCEMOS PARA O SONO


 
Nascemos para o sono,
nascemos para o sonho.
Não foi para viver que viemos sobre a terra.
Breve apenas seremos erva que reverdece:
verdes os corações e as pétalas estendidas.
Porque o corpo é uma flor muito fresca e mortal.


Herberto Helder
in Poesia Toda I, Lisboa: Plátano Editora, 1973

Parabéns (I)

MOSAICO
 
 
 
Altos e baixos deformam o terreno.
Ervas daninhas apoderam-se das juntas.
Mas o tempo, surpreendente invenção
do mundo antigo, até no desperdício
procurou o equilíbrio: o pavimento
regenera-se, aproveitando a mesma pedra
da calçada original.

Continuam por aqui os destroços
do naufrágio. Todavia, estes nós são mais
complexos, cada vez querem mais corda.

Há um pássaro estendido sobre si,
voando para dentro do abismo.
Há uma janela aberta, pela qual a chuva
se recusa. Que outros elementos
vos parecem deslocados?
Estas são, afinal, as vossas vidas.
Direcções sobre as quais nada sabemos.

Vítor Nogueira, Mar Largo,
Lisboa: &etc, 2009
Biblioteca dos Rapazes e 'assemblage' de Rui Pires Cabral
no Paralelo W



dimanche 18 novembre 2012

Manuel de Castro (17/11/1934 - 1971)

SEGUNDA AUSÊNCIA DE MADRID



aqui estamos, sonho, a caminho.
um punho plantado ou uma árvore a descoberto
com o sabor de um longo passado (o que é um passado?)
ruminando saliva pesada, olhando fixamente
as acrobacias mortais

um homem pode o seu coração

aqui estamos, sonho,
aqui estamos, boneca de papel,
cigarro, coração transcorrendo
igual a uma núvem
tenho por referência um válido herói
ou a pedra ligeiramente solta
na espessa parede

o homem pode o seu coração:
o que tem a verdade - a viva ou se assemelhe
a que tem a lua indique a ilha
ou seja o seu limite

jeudi 15 novembre 2012

LISBOA (3)

imaginaste um país imóvel devorado pelo sol
e o arrepio do canto espalhou-se pelas ruas
onde o tempo passa lento e branco em direcção
a outro tempo igual

ao fundo do restaurante o olhar preso em ti
da dama do charuto - café flor do mundo
encruzilhada onde se dorme frente à europa
apercebida como uma sombra que se afunda
nas veias dos arrumadores de carros

imaginaste que em ti permaneceria
esse barulho metálico de continentes abandonados
enfim
ontem foi o último dia
em que conseguiste calçar-te - essa guerra
que te deixou por sarar
um túnel de veludo ensanguentado na cabeça
 


 AL BERTO

mercredi 14 novembre 2012

Neste 14 de Novembro:


Os poetas dignos desse nome recusam-se a deixar-se explorar. A verdadeira poesia habita todo aquele que não se conforma com esta moral, a qual, para manter a sua ordem e o seu prestígio, só sabe construir bancos, quartéis, cárceres, igrejas e bordéis. A verdadeira poesia habita tudo aquilo que liberta o homem daquele bem terrível que tem a cara da morte. Está na obra de Sade, e de Picasso assim como na de Rimbaud, de Lautréamont ou de Freud. Está na invenção da rádio, na expedição do Celiuskin, na revolução de Astúrias, nas greves de França e da Bélgica.

Pode estar tanto na fria necessidade, a de conhecer ou comer melhor, como no sabor do maravilhoso. Há já mais de cem anos, os poetas desceram dos cimos onde julgavam encontrar-se. Vieram para a rua, insultaram os patrões, já não têm deuses, atrevem-se a beijar na boca a beleza e o amor, aprenderam as canções de revolta da multidão infeliz e, sem desfalecer, procuram ensinar-lhes os seus cantos.

Pouco lhes importam os sarcasmos e o riso. Já estão acostumados; mas agora têm a certeza de que falam por todos. Têm a sua própria consciência pelo seu lado.



Paul Éluard, "A Invenção Poética" (excerto)
in Franco Fortini, O Movimento Surrealista, trad. António Ramos Rosa,
Lisboa: Editorial Presença, 1980

lundi 12 novembre 2012



“Fidelidade”  
Assemblage de Manuel de Freitas  
sobre um poema de Jorge de Sena


Via: AINDA NÃO É TARDE

FIDELIDADE



Diz-me devagar coisa nenhuma, assim
como a só presença com que me perdoas
esta fidelidade ao meu destino.
Quanto assim não digas é por mim
que o dizes. E os destinos vivem-se
como outra vida. Ou como solidão.
E quem lá entra? E quem lá pode estar
mais que o momento de estar só consigo?

Diz-me assim devagar coisa nenhuma:
o que à morte se diria, se ela ouvisse,
ou se diria aos mortos, se voltassem.


Jorge de Sena
[Um dos poetas/poemas em exposição no Paralelo W]

dimanche 11 novembre 2012



Artistas Unidos/Livros Cotovia
Lisboa, Abril 2012



Artistas Unidos/Livros Cotovia
Lisboa, Maio 2009

vendredi 9 novembre 2012



A caixa de Pandora...
Luis Manuel Gaspar, perplexo, na montagem da exposição PEDACINHOS DE OSSOS.


jeudi 8 novembre 2012

Um cigarro
ninguém tem
um cigarro?
um copo de vinho
um amor perdido
uma causa iludida
uma angústia a mais?
alguém quer trocar de veias
de sangue
de coração
de pulmões?
um cigarro
ao menos
ninguém tem
um cigarro?
 
 
 
Carlos Alberto Machado, A Realidade Inclinada,
Lisboa: Averno, 2003

mercredi 7 novembre 2012

INAUGURAÇÃO

Inaugura também neste sábado, dia 10, às 18h,
a exposição PEDACINHOS DE OSSOS,
'assemblages' dos sócios/amigos do Paralelo W,
a partir de poemas:
 
 
 
 
Daniela Gomes
Inês Dias
Luís Henriques
Luis Manuel Gaspar
Manuel de Freitas
Miguel de Carvalho
Ricardo Álvaro
Rui Miguel Ribeiro
Rui Pires Cabral
Teresa Estêvão

LANÇAMENTO


O lançamento do CÃO CELESTE #2 
será dia 10 de Novembro (sábado),
às 18h, no Paralelo W.



mardi 6 novembre 2012

O amigo
quer publicar o fogo,
libertá-lo
da cinza acumulada
a que chamamos país.


 Pádua Fernandes, Cálcio,
Lisboa: Averno, 2012

Novidade

 
 
Averno 049

dimanche 4 novembre 2012



Jorge Fallorca
O Livro do Fim, 2012



Rui Diniz
Ossuário (Ou: A vida de James Whistler), & etc, 1977

jeudi 1 novembre 2012


[...]

No Natal, uma amiga mandou-me um cartão de boas festas da Unicef com um Anjo da Anunciação de Fra Angelico. Tenho-o em exposição no meu quarto e, quando quero rezar, olho para ele. Mas não sou contemporânea de Fra Angelico. Não posso tomar café e tagarelar com ele nos cafés como posso fazer com a amiga que me enviou o anjo dele pelo Correio. Por isso o Anjo da Anunciação de Fra Angelico, que é tão bonito, pode também ser doloroso. Fra Angelico já morreu. E não é a beleza do anjo de Fra Angelico que me garante que Fra Angelico ressuscitará.
Um poema de Rimbaud está cheio de violência. Há muita beleza na expressão dessa violência. E isto é terrível. Preferia que Rimbaud não estivesse ferido a ponto de escrever daquela maneira? Preferia. Mas não posso dizer isto assim.
A arte é feita para construir a paz. Não é um esgrimir no vazio. Não pode ser. Olho para o Anjo da Anunciação de Fra Angelico. Parece-me belíssimo. É vermelho e dourado. É verde e azul. Mas, ao escrever assim, parece-me que estou a evocar o poema de Rimbaud intitulado «Voyelles». A arte é um modo de lidar com a ausência. E por isso é tão preciosa e tão perigosa. Nunca é a alegria da presença.



Adília Lopes, Le Vitrail La Nuit/A Árvore Cortada, 
Lisboa: &etc, 2006

mercredi 31 octobre 2012

CEMITÉRIO DO PÈRE-LACHAISE


No Père-Lachaise a solidão é um útero de regresso,
os mármores têm a aparência de leite cansado,
a eternidade é uma toupeira que dá de mamar aos seus mortos.
No Père-Lachaise há crianças albinas a mascar hera,
os corvos entesouram puxadores caídos de portas que ninguém conhece,
soam mais amargos os violinos de Enescu debaixo dos salgueiros.
Junto a Jim Morrison alguns cravos de outros tempos
ainda elevam vapores e descargas eléctricas.
Oscar Wilde é só musgo a rebentar a pedra.
Às seis da tarde um funcionário tranca a morte,
abre a cigarreira. Sumido entre o fumo talvez pense:
Que trabalho inútil viver. Quanto tempo perdido.
Uma roseira deixou os espigões abertos sobre Sadeq Hadayat.
Sentados nos seus ciprestes os anjos levantam âncoras.
O cemitério zarpa novamente e Paris é o Inverno.


Jesús Jiménez Domínguez
in Criatura  n.º5, Outubro 2010

mardi 23 octobre 2012

José Miguel Silva...

 
 
... no Paralelo W.
 
 
 

RITOS
(Versão de um poema de Nicanor Parra)


De cada vez que regresso
Ao meu país
                         depois de uma longa viagem
O primeiro que faço
É perguntar pelos que morreram:
Qualquer homem é um herói
Pelo simples facto de morrer
E os heróis são os nossos mestres.

E em segundo lugar
                                     pelos feridos.
Só depois
                                     não antes de cumprir
Este pequeno rito funerário
Me considero com direito à vida:
Fecho os olhos para ver melhor
E canto com rancor
Uma canção de começos de século.


José Miguel Silva, Ulisses Já Não Mora Aqui
Lisboa: &Etc, 2002
 
[Via 50 KG]
 

lundi 22 octobre 2012

António Barahona lê...

video

 
... "Vírgulas de Sangue"
in Deitar a Língua de Fora, Lisboa: Língua Morta, 2012

Prémio Nacional de Poesia Diógenes - 2011

 
 
A cerimónia informal de atribuição do Prémio,
seguida de uma leitura de poemas de António Barahona
por Diogo Dória,
terá lugar no próximo sábado, dia 27 de Outubro, às 18h,
no Paralelo W.
 

dimanche 21 octobre 2012




O QUARTO AZUL E OUTROS POEMAS
Rui Caeiro / Ilustrações de Bárbara Assis Pacheco
Letra Livre, 2011


O MARTELO
Jorge Roque, Edição do Autor, 2012

samedi 20 octobre 2012

QUANDO EU SOUBE DA MORTE DO POETA MANUEL ANTÓNIO PINA


O dia já estava escuro
quando eu soube da morte do poeta
Manuel António Pina.

"Então isso faz-se?, perguntei,
incrédulo, ao escuro.

E acrescentei:
"Agora quem vai lembrar o nome do cão,
tactear as sombras dos livros,
aflorar o escândalo das nuvens
no céu?

Eu sei, o coração é um logro,
a beleza pura ilusão;
mas sem estas
e outras palavras, escuro,

como iluminar
cada segundo, cada promessa
inseparável da nossa vida?"

Então, caiu a noite.
E, significativamente,
o escuro optou por não me responder.



lundi 15 octobre 2012

dimanche 14 octobre 2012

Revistas no Paralelo W (3):

HOMENAGEM A 4 POETAS E 1 CINEASTA
 
 

Livra-me das tentações
de fugir ao fisco
e que em Fevereiro pague sempre
os meus impostos.
Afasta-me do supérfluo e
da vaidade e recorda-me que
um dia hei-de ter hemorróidas.
E não me deixes cair no pecado
da ideologia
para que não leve com o proletariado nas trombas.
Guia-me pelos caminhos do amor
até um centro comercial
onde o amado me acompanhará
a experimentar um a um cada vestido.
E, por último, faz com que
todo o iogurte que coma seja
– foda-se! –
de morango.


Ana Paula Inácio
in Telhados de Vidro n.º11,
Lisboa: Averno, Novembro de 2008
 
 
 

mercredi 10 octobre 2012

Chegou hoje:

 
 
DO LADO DE FORA,
de José Carlos Soares
 
[50 Kg, 150 exs., 10 euros]
 

dimanche 7 octobre 2012






Edward Lear, LEARICKS
& etc, 2005
o rosto é aquele que sonhei
e não o que a noite dos espelhos tenta dar-me

AL BERTO



Manuel de Freitas, A NOITE DOS ESPELHOS
frenesi, 1998
Não se mexe uma folha.
O silêncio adormece.
E, dos ramos, em gotas, se desfolha.
Tudo espera não sei que milagre ou que sonho.



Francisco Bugalho, POESIA
LG, 1998





















Francisco Bugalho, POESIA 
LG, 1998

samedi 6 octobre 2012

Revistas no Paralelo (1):

   
   
   
 
ROBERT WALSER
   
    
    
 
De sapatos novos,
aí vai o sacristão,
como se resplandecesse o dia,
e o jardineiro
varre o caminho de saibro
como se alisasse
a memória,
mas não irão pôr ordem
no tempo antes do inverno,
lançam os iscos
ao ar e dizem
que os pássaros são peixes.
  
   
Regressas,
mais pesado,
às casas que nunca
partilharam contigo
uma infância,
     
     
na aldeia
ninguém te conhece
 
     
no olho
da betoneira
giram os céus
dilacerados.


Jürg Beeler
[Trad. João Barrento]
 

mercredi 3 octobre 2012

samedi 15 septembre 2012

dimanche 9 septembre 2012

No próximo sábado (dia 15 Setembro), às 18h:

Lançamento
de
HOTEL OSLO




Uma plaquette de:

Diogo Vaz Pinto
Inês Dias
Manuel de Freitas
Marta Chaves
Miguel de Carvalho
Rik Lina

mardi 31 juillet 2012

FÉRIAS

 
O PARALELO W fecha para férias no dia 5 de Agosto (domingo), às 20h.
E reabre no dia 1 de Setembro (sábado), às 14h.

vendredi 20 juillet 2012

Na próxima 4ªf (dia 25), às 18h...

Esta é a ditosa Pátria 
- leitura de poemas sobre Portugal -

 
Luís de Camões, Fernando Pessoa, Jorge de Sena, Sophia de Mello Breyner Andresen, António Manuel Couto Viana, António Barahona e João Miguel Fernandes Jorge são alguns dos poetas que, ao longo dos séculos, apresentaram armas à Nação.

A língua e os limites são antigos, mas esta causa é nova e a ditosa Pátria, amada ou não, será lida por cada um de nós.

lundi 16 juillet 2012

Esta 5ªf, às 17h...


Exibição do documentário ALDINA DUARTE, PRINCESA PROMETIDA,
com a presença de Aldina Duarte e Manuel Mozos.