dimanche 19 mai 2013

POEMA PARA UM PÁSSARO QUE O LUIS MANUEL GASPAR NÃO PINTOU

Morreu-me entre as duas mãos o pássaro
vadio, era o meu peixe azul num aquário,
o fanatismo de ser de um clube, o meu ídolo
com as suas pequenas patas de barro.
Visitava-me muitas vezes, cheguei a crer
que era mais do que um, mas não, era
sempre o mesmo, o meu pássaro com asas
de um negro radioso, talvez não fosse negro,
talvez fosse às riscas, mas o bico, esse
era amarelo torrado e nunca há-de haver outro
como ele. Não lhe dei de comer, porque ele
não precisava, ele desenvencilhou-se sozinho,
acompanhou-me na velhice dos dois sem nada
exigir e agora, de asas caídas e patas trémulas,
veio morrer às minhas mãos o meu amigo.



Helder Moura Pereira, Pela parte que me toca,
Lisboa: Assírio & Alvim, 2013

vendredi 17 mai 2013

O 1º exemplar...

 
 
... do 1º livro editado pelo Paralelo W,
no seu 1º aniversário.
 
[Disponível a partir de 22 de Maio]
 

dimanche 12 mai 2013

António Osório




in A Luz Fraterna - Poesia Reunida
Lisboa: Assírio & Alvim, 2009

vendredi 3 mai 2013

Rui Pires Cabral

 
PLANO DE EVASÃO

Que mais podemos fazer?
Este amor é um país cansado

que não nos deixa mudar.
O medo cerca as fronteiras

e a capital é Nenhures,
cidade de perdulários

e pequenas ruas tortas
onde vem morrer a noite -

aqui estamos ambos sós,
desunidos, extraviados,

não há táxis na praceta
nem cinzeiros nos cafés

e perdemos os amigos
entre as curvas de um enredo

que deixámos de seguir.
Mas não era nada disto

o que tinha na cabeça
ao começar a escrever:

os versos chamam o escuro,
abrem os portões ao frio

e eu quero estar nas colinas
do outro lado do rio.

 
- in LADRADOR,
Lisboa: Averno, 2012

mercredi 24 avril 2013

Alexandre Sarrazola





peixe-aranha: patti smith: radio ethiopia



tenho as margaridas do teu vestido de verão; azuis e amarelas
o pêlo da raposa pelos ombros e o chapéu de lã não me enganam
a chuva oblíqua a fugir do outro texto; do texto do outro
"não entres nesse quarto"; a porta sempre fechada.

éramos secos de carnes e tínhamos cortado as mãos.
de rimbaud já só aquela faixa de sombra sobre o lado direito do rosto
a ampola de cloreto etílico pousada no chão de losangos pretos e brancos
o éter aspirado num lenço que se volatilizou como uma ave maligna
"é para a picada de peixe-aranha".

a banheira de esmalte estalada no rebordo
a água fria; os teus gatos que acordavam
o teu vestido de margaridas pousado num banco da casa de banho
e o efeito da ampola como um relampejo letal

a polaroid desse dia já começou a desvanecer-se
e não afoguei ainda a imagem do silêncio
virá comigo com os gestos por fazer
para o findo poço de mercúrio


in Thaumatrope,
Lisboa: Averno, 2007

mardi 23 avril 2013

Pádua Fernandes

 
[...]

Aqui era um restaurante popular. Mas temos que pensar no futuro. Quando inauguro creches já penso em cemitérios. Tínhamos o prédio conjugando restaurante popular e presídio. Economia das instalações. O Estado acolhe todos em sua boca... imensa. Assim a gente evita greve de fome. Gente primitiva não quer o progresso nem empreiteiras. Aqui nenhum cidadão de verdade foi espancado por causa disso.
Não era este o discurso. Perdoem. Achei: aqui era um restaurante popular. Hoje, inauguramos esta demolição.
Preparamos o futuro.
 


 in Cálcio,
Lisboa: Averno, 2012
 
 

samedi 20 avril 2013

Rui Nunes

2

Uma arma é
a intimidade mais antiga que habita uma casa:
na penumbra das salas, qualquer objecto inicia uma guerra.
Porque as palavras resvalam por um corpo de ossos
mas a mão incerta da criança
descobre a solidez de uma pedra,
de um reflexo na toalha ao lado do pão
ou na unha um prego cravado na pele.
:
Uma criança mede o futuro:
com a imprecisão dos pequenos golpes
aprende a minúcia assassina de um movimento.

 
 in Ladrador,
 Lisboa: Averno, 2012
 
 
 
 
[Fotografia de Esther Bubley,
"Boys watching the Woodrow Wilson high school cadets", Washington, 1943]